Foto: Warner Bros.

Conforme prometido, volto ao Coringa, pela terceira – e em princípio última – vez. Já explique por que acredito que ele não tenha um transtorno mental (aqui), e por que essa opinião revolta tanto as pessoas (aqui). Deixei para hoje a análise de sua risada por acreditar que ela merece um texto à parte.

Não se preocupe se não assistiu ainda – não vai aqui nenhum spoiler da trama. Mas para compreender o texto é bom saber que em determinados momentos Joaquin Phoenix – numa atuação irretocável – começa a rir de forma muito estranha. Inicialmente parece que tenha achado algo muito engraçado, mas conforme passam os segundo vamos notando algo diferente. Há algo de exagerado, incontido. Logo essa mesma risada aparecerá em momentos inadequados, quando ele fica nervoso, por exemplo. Se restasse alguma dúvida de que se trata de uma risada patológica, ele mesmo apresenta para uma personagem coadjuvante que se sente ofendida um cartão explicando que sofre de uma condição médica. Ele não está rindo dela, mas de forma involuntária.

Embora acreditemos que choro e riso seja opostos, ambos são manifestações externas, principalmente faciais, relacionadas a emoções intensas, que são tanto reflexas como formas de comunicação. Ambas ocorrem com sonorizações cíclicas, entremeadas com a respiração, e podem ser acompanhadas de lágrimas. Elas são mais vizinhas do que antípodas. E é por isso que às vezes ocorre um curto-circuito entre tais expressões. Rir de nervoso na frente do chefe, chorar de alegria, ter uma crise de riso em velório, rir e chorar ao mesmo tempo diante de um tombo. Provavelmente você já testemunhou ou viveu algo assim.

O cérebro mantém as expressões emocionais geralmente sob controle, mas às vezes, em situações muito carregadas de afetos como essas tais bugs podem ocorrer. Ou quando existe alguma interferência com o funcionamento adequado do cérebro. É o caso de pessoas embriagadas ou intoxicadas por determinadas substâncias, por exemplo (o bêbado emotivo é um clássico). Mas também em transtornos neurológicos, como esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla, Alzheimer, derrames, traumatismos graves ou tumores cerebrais, podem levar a um quadro chamado afeto pseudobulbar. Trata-se de uma condição de labilidade e incontinência afetiva, na qual choro e riso ocorrem de forma descontrolada – tanto em sua intensidade como duração – como também descontextualizada – fora de hora ou diante de uma emoção oposta.

É bem o que acontece com o Coringa, como sabe que viu o filme. Mas aí me surge a dúvida: teria ele alguma dessas condições neurológicas? Sinceramente acho bem improvável que doenças de tal gravidade se manifestassem exclusivamente pelo sintoma emocional – outros sinais neurológicos deveriam ser evidentes.

De forma coerente com o que defendi no primeiro artigo, portanto, acredito que o Coringa não está aí para ser diagnosticado. Não se trata de descobrir qual ou quais suas doenças. Ele é um personagem deslocado, inadequado, incoerente; uma caricatura que quer levar ao extremo nosso incômodo diante do outro. Essa é a questão.

Se para provocar essa reação em nós os artistas utilizam sintomas – neurológicos, psiquiátricos, sociais, psicológicos, astrológicos, o que for – tanto faz. Essas características não estão reunidas ali para fazermos uma análise dele. É o contrário.

Ahmed A, Simmons Z. Pseudobulbar affect: prevalence and management. Ther Clin Risk Manag. 2013; 9: 483–489.