Quando uma amiga que não pega ônibus, mora em Higienópolis e trabalha no Morumbi – ficando, portanto, sujeita aos vários transtornos que as mobilizações vêm causando na cidade em seu trajeto diário – confessou-me que “estava com vontade” de participar das passeatas, confirmei o que há alguns dias vinha sendo dito: o movimento já foi muito além dos protestos pelo aumento das passagens. Os líderes do Movimento Passe Livre (MPL) se esforçam para dizer que o grito predominante nas ruas é sim contra os vinte centavos a mais, justificando que chamar as pessoas para protestar contra a política ou contra a corrupção não atrai tanta gente. É verdade. Mas não é mais possível negar que são histórias como a da minha amiga que vêm multiplicando exponencialmente a adesão aos protestos. Em meio às palavras contra o preço da tarifa ouvem-se críticas aos gastos com a Copa, à violência policial, à corrupção.

Aturdidos com o que vemos, jornalistas, intelectuais e acadêmicos ainda demoraremos a compreender e traduzir adequadamente a real dimensão e a profundidade dos eventos que se desdobram aparentemente de forma autônoma. Seu significado não é mais pré-determinado, mas emerge da reunião dos indivíduos e assume, por isso, um caráter dinâmico que implode as agendas ocultas interessadas.

Ainda assim, arrisco que nosso incontrolável impulso de seguir a massa tem um papel em tudo o que está ocorrendo. Provavelmente por termos evoluído em sociedade é bastante arraigada em nós a tendência a imitar o comportamento alheio. Viver em bando, afinal, implica muitas e contínuas interações, tornando muito custoso – se não impossível – decidir constantemente como agir. Poupamos essa energia ao ir com o rebanho, evitando ter que deliberar a cada segundo – são muitas as experiências mostrando que quanto maior o número de pessoas se comportando de determinada maneira, mais difícil é resistir à atração gravitacional da multidão. Mas não acho que só isso baste para explicar a ampliação dos protestos. (mais sobre o tema) Existe também o componente de insatisfação generalizada nos cidadãos – a sensação de que no país se trabalha para o Estado, e não o inverso, perpassa diversas camadas sociais. Quando isso vem a público em manifestações coletivas surge um conhecimento compartilhado, e em vez de nos acharmos os únicos insatisfeitos, passamos a saber que todo mundo sabe que está todo mundo insatisfeito, por um motivo ou por outro.

Portanto, a generalização das demandas, em que pese a resistência do MPL em reconhecê-la, pode ser a grande força motriz da expansão dos protestos. Mais do que estar indignadas com as tarifas de ônibus, as pessoas reconhecem umas nas outras o cansaço com as decisões governamentais que interessam mais aos políticos do que à população – seja preço de passagem, sejam gastos com Copa, seja mensalão – e tal reconhecimento aumenta a identificação com a massa. O que torna muito mais fácil ceder ao apelo daquela multidão, que além de numerosa concorda conosco.

Talvez estejamos assistindo a uma nova versão da Revolta da Vacina. Assim como aquele movimento não foi contra a vacina, mas contra um contexto político e social profundamente autoritário e excludente, a “Revolta das Passagens” agrega muito mais do que conseguimos ver agora, de tão perto, mas podemos inferir que é desse muito mais que ela extraiu até aqui sua força.