fonte: morguefile

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Acho que o arrependimento mais comum que as pessoas apresentam, seja perto da morte,  seja num momento de balanço da vida, tem a ver com a forma como investiram o tempo nos relacionamentos. A frase “Gostaria de ter uma segunda chance para…” é quase sempre completada por coisas como “dar mais tempo aos filhos antes que eles crescessem”, “gastar mais tempo com a esposa antes que o casamento acabasse” e assim por diante. Por que será?

Tenho uma teoria. Comecemos por uma analogia: já reparou que ninguém é turista na sua própria cidade? Geralmente no lugar em que moramos nós não separamos tempo para visitar pontos históricos, não fotografamos as estátuas públicas, mal conhecemos os teatros municipais. Quando viajamos, no entanto, dá-se exatamente o contrário – queremos visitar dezenas de lugares em poucos dias, tiramos fotografia até das sombras, sacrificamos horas de descanso para ir ao maior número de lugares possível.

No papel de turistas temos a sensação que é a única chance de ver aquilo, e por isso saímos afobadamente tentando conhecer tudo – nos arriscando a não conhecer realmente nada. E quando somos moradores desdenhamos das preciosidades que nos cercam, porque cremos que elas sempre estarão por ali quando quisermos vê-las – e muitas vezes não as conhecemos nunca.

O paralelo com nossos relacionamentos, se não é perfeito, pode ser esclarecedor.

Os começos de relacionamento tendem a ser intensos: seja numa grande amizade, num namoro, nos pais de primeiro filho, a busca pela presença do outro é contínua, quer-se fazer tudo junto, as conversas são longas, os encontros nunca longos o bastante. São situações em que o risco é de um sufocar o outro, privá-lo de seu espaço privado necessário. Não é muito agradável, mas não é a causa dos grandes arrependimentos da vida.

O problema maior está na outra ponta, nos vínculos que estabelecemos com pessoas que, de tão presentes e constantes, simplesmente contamos que estarão ali no dia seguinte. Pais, filhos, esposa, avós, amigos íntimos – quanto mais próximo o relacionamento, mais ele corre o risco de ser classificado como permanente. É aí que, como fazemos no dilema morador x turista, investimos mais energia em coisas passageiras do que nas pessoas próximas, porque afinal estas sempre estarão disponíveis, qualquer dia a gente senta com calma. Até que a separação – fim inevitável de todo relacionamento bem sucedido – acaba com a possibilidade do amanhã. E surge o arrependimento.

Mas não se trata de uma conclusão pessimista. A mensagem principal aqui não é a de que todo relacionamento um dia vai acabar (embora vá. Essa é a mensagem secundária). O mais importante é saber que, assim como as cidades, as pessoas que nos cercam escondem tesouros especiais para quem procurar, e o tempo gasto nessa busca rende as melhores experiências de nossas vidas.