Comer é tão bom, tão instintivo e tão necessário, que situações nas quais alguém escolhe não se alimentar são profundamente perturbadoras. Lembro-me que durante a faculdade de medicina nada me impressionou mais do que as pacientes com anorexia, cuja distorção da imagem corporal fazia que mesmo as mais esqueléticas se achassem gordas, recusando por vezes até mesmo água. Esse incômodo foi comercialmente explorado no século XIX, quando faquires jejuavam publicamente para o fascínio aflito do público, como retratado no conto O artista da fome, Kafka. Isso tudo para não entrar na situação mais prosaica dos pais que se desesperam com os filhos que não comem bem.

Essa sensação mista de mal estar e indignação que o jejum voluntário causa, sobretudo quando prolongado, há séculos é usada como uma ferramenta de protesto – na Irlanda medieval, por exemplo, era legal exercer o cealachan – alcançar justiça por meio da fome. Muito antes disso, desde a Antiguidade já havia na Índia a prática do sentar para morrer de fome diante da casa de alguém que cometera uma injustiça. Como em todos esses exemplos – e mesmo no caso dos filhos birrentos – a moderna greve de fome procura usar o desconforto gerado pela privação de comida para atrair os olhos da sociedade em favor de uma causa. Normalmente usada em situações extremas, é frequente entre pessoas com a restrições à liberdade, como presos e exilados, já que tais pessoas têm poucos meios de protestos.

Há meses Barack Obama se vê às voltas com uma greve do fome dos detidos em Guantánamo. Menos do que a detenção, o que angustia aqueles detentos é falta de qualquer parâmetro legal que norteie sua situação. Eles não conseguem ter esperança de sair nem tristeza por uma condenação perpétua, vivendo num limbo indefinido e, por isso mesmo, mais angustiante. Por conta disso mais de cem prisioneiros iniciaram uma greve de fome em fevereiro, e de lá para cá o número de rebelados diminui lentamente.

A notícia mais inquietante, contudo, é que esses homens vêm sendo alimentados à força. Os que mantém a recusa alimentar e correm risco de morte são amarrados a cadeiras e têm uma sonda inserida pelo nariz até o estômago, por onde uma alimentação pastosa é inserida. Eticamente isso não poderia ser feito. Se a decisão do sujeito de não se alimentar foi livre e racional, inclusive com o risco de morte, não há justificativa para alimentá-lo contra seu desejo. Mesmo a Associação Médica Mundial afirma que a alimentação forçada nunca é eticamente aceitável, uma vez que desrespeita a autonomia do sujeito.

Sim, é extremamente angustiante saber que aqueles homens podem morrer a qualquer minuto por algo reversível – imagine-se para o médico, que está ao lado do sujeito. Mas é essa perspectiva que dá maior impacto ao protesto, pois se fica acertado de saída que nada de pior vai acontecer, sua força diminui. Como no conto de Kafka, em que o faquir fica tantos anos sem se alimentar – e nunca morre – que acaba esquecido pelo público.

A ideia de uma greve de fome só tem sentido se incluir a aceitação do risco de morte. Sem essa terrível possibilidade, seu incômodo – e sua eficácia – ficam comprometidos.