Faz tempo que queria falar do grupo Porta dos Fundos, mas estava esperando o momento é propício. É agora, já que o comediante Danilo Gentili está sendo novamente processado por conta de uma piada. Para que não ouviu, Gentili ironizou a maior doadora de leite humano do país, comparando-a a um ator pornô. A moça ficou ofendida, passou a ser alvo de piadas na cidade onde mora e decidiu processá-lo.

Não sou a favor de censura prévia. Defendo que todo mundo fale o que quiser, mas isso tem preço – se queremos ter liberdade para falar qualquer coisa temos que aceitar as consequências, mesmo as não previstas. Já escrevi sobre o impacto das piadas aqui, e avisei os comediantes nessa singela cartinha que eles teriam problemas. Mas é mais fácil acusar o país de estar se tornando careta, gritar que o politicamente correto está matando o humor, do que por a cabeça para funcionar.

O problema dessas piadas não é serem ofensivas, é serem mal feitas. Não necessariamente sem graça – às vezes a gente até ri delas – mas falta sofisticação. E aqui chegamos ao Porta dos Fundos. O grupo trata de temas extremamente quentes, como religião, pedofilia, preconceito, prostituição, tirando sarro de tudo sem poupar ninguém, e até onde eu sei nunca foi processado. Para mim a diferença entre eles é a inteligência. Eles conseguem fazer as críticas sem perder o ar bufão, mantendo a tensão entre a violação de algumas regras e a preservação de outras, conseguindo parar a ironia milímetros antes de ela cruzar a linha da ofensa. Seus vídeos geralmente só são criticados quando eles erraram esse cálculo, criando peças mais agressivas que – não por acaso – são as mais sem graça.

Só como exemplo, no recente “Sessão de Terapia”, um terapeuta passa o tempo todo minimizando o sofrimento do seu cliente. “Eu tive uma semana dura no trabalho”, reclama o paciente. “É trabalho escravo? Você apanha no trabalho?” devolve o terapeuta “Então, vamos ficar satisfeitos?”. E vai assim até a hora em que o doutor perde a paciência e parte para cima do cliente, usando estratégia muito semelhante ao “joelhaço” do Analista de Bagé. “Aqui não é série do GNT não, aqui é psicanálise das ruas!”, diz enquanto espreme os testículos do infeliz. Intuitivamente o vídeo capta um fato essencial da psiquê humana – comparar nossos problemas com o dos outros traz uma sensação de alívio, dada a noção de que “podia ser pior”. Mas estudos recentes mostram que isso tem efeito contrário quando são os outros que fazem por nós, pois aí percebemos que nossa dor não foi valorizada e nos sentimos pior. Rimos dessa sessão de terapia porque, como uma caricatura, ela consegue nos representar nos dois papéis ao mesmo tempo, exagerando nossos traços: sabemos que tudo podia ser pior e queremos falar isso para os outros, mas não queremos que ninguém nos diga.

Tenho quase certeza que os integrantes do Porta dos Fundos não leram essa pesquisa. Mas o exemplo mostra que não precisa ser careta para fazer humor sem apanhar. Basta ser inteligente.

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Kristin W. Grover, Elizabeth C. Pinel, Jennifer K. Bosson, & Lavonia Smith LeBeau (2013). The boundaries of minimization as a technique for improving affect: good for the goose but not for the gander? Journal of Applied Social Psychology, 43, 1717-1724 DOI: 10.1111/jasp.12127