Toda doença causa sofrimento, mas nem todo sofrimento pode ser chamado de doença. Isso não significa que as pessoas que sofrem por motivos não patológicos não precisem de atenção e mesmo de cuidados.

O projeto do deputado João Campos, do PSDB-GO, o famigerado projeto da “cura gay” que Marcos Feliciano pretende colocar em votação no próximo dia 8 de maio na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, ignora essa diferença básica, misturando sofrimento e doença, e, principalmente, confundindo ciência e política. Explicando: o Conselho Federal de Psicologia (CFP) proibiu, desde 1999, que os psicólogos do país divulguem ser capazes de curar algum homossexual de sua orientação, bem como de se referir à homossexualidade como doença. A medida, há que se ressaltar, é muito mais para regulamentar o trabalho dos profissionais do que determinar o que é ou não patológico – a definição oficial do que é doença não se dá por uma decisão de um conselho de classe, seja qual for, mas passa por grandes grupos de estudo, seja da Organização Mundial da Saúde ao definir a Classificação Internacional de Doenças, seja da Associação Americana de Psiquiatria no seu Manual Estatístico e Diagnóstico, o DSM. Desde a segunda metade do século XX essas classificações foram excluindo progressivamente a orientação sexual de seus quadros, e hoje já não se associa, em qualquer diálogo em que haja seriedade, homossexualidade e doença. A decisão do CFP, portanto, está alinhada com o conhecimento científico atual, e contribuiu em muito para a redução do estigma que pesa sobre os homossexuais.

Levando em conta a distinção entre sofrimento e doença, contudo, fica claro como o argumento do projeto de Campos, de que a resolução do CFP impede a liberdade profissional é falacioso. As pessoas podem sofrer pelos mais variados motivos – podem sofrer por serem mais baixas do que a média, por exemplo, ou por não serem correspondidas no amor. E não é raro que homossexuais sofram por conta de sua orientação – seja por pressão da família, por inadequação ao contexto ou mesmo por crises religiosas, as pessoas podem não se sentir confortáveis e buscar ajuda. Essas pessoas podem muito bem procurar psicólogos, e os objetivos dessa terapia devem ser definidos entre o profissional e seu paciente. Nada impede que a pessoa não queira viver sua homossexualidade, quando então o tratamento pode se voltar para ajudá-la a lidar com o fardo de tal decisão.

Isso é muito diferente, no entanto, de propalar alguma “cura” para os gays, como se fosse possível mudar o objeto de atração sexual.