Saber das coisas era mais fácil quando tudo o que existia era aquilo captado por nossos órgãos dos sentidos. Até intuíamos a existência do invisível, intocável, mas colocávamos essas coisas num plano transcendental, espiritual. O título de realidade palpável era reservado para o que fosse realmente palpável.

Então o mundo real cresceu. Quando as lentes mostraram que havia seres microscópicos à nossa volta e luas gigantescas em volta de outros planetas não pudemos mais confiar em nossos sentidos. A realidade ganhou outra dimensão, confundindo a ordem até então estabelecida.

Nascidos depois da revolução científica que somos, não conseguimos nos dar conta do tamanho desse impacto – a existência do invisível para nós não causa espanto. Mas quem estava lá durante esses abalos experimentou um estranhamento que agora podemos vivenciar em parte na leitura do romance Os órgãos dos sentidos, do escritor Adam Ehrlich Sachs publicado esse ano pela editora Todavia.

Trata-se de uma narrativa convoluta na qual o narrador apresenta para o leitor um relatório que famoso matemático e filósofo Gottfried Leibniz apresentou à revista científica Philosophical Transactions depois de se encontrar com um astrônomo cego que supostamente previu um eclipse total do sol. Sachs nos conta o que Leibniz contou que lhe contou o astrônomo, cuja sanidade está ela mesma posta em questão. O leitor fica perplexo, como devem ter ficado as pessoas de então. Se o eclipse de fato ocorrer fica comprovado que o cientista, mesmo cego, seguia lúcido. Embora se não ocorresse, o que será que isso prova? – pergunta-se o filósofo.

O livro é conduzido pela história do astrônomo, desde sua infância até chegar à explicação de como perdera os olhos, ao longo da qual vários aspectos do estranhamento da modernidade e da tecnologia cruzam seu caminho – causando essa sensação de estranhamento no leitor. Só para ficar num exemplo, quando seu pai constrói uma cabeça mecânica imitando uma cabeça humana, por exemplo, ela fica tão perfeita que em vez de parecer autêntica ela reduz a autenticidade das cabeças reais – a partir dela fica claro que o próprio ser humano é uma espécie de autômato; outro golpe certeiro na visão de mundo da época.

Nesse mundo moderno, no qual o conhecimento vai ficando cada vez mais especializado e de difícil compreensão para o leigo, torna-se impossível viver sem acreditar nos intermediários do conhecimento, como cientistas e especialistas de toda sorte. (Colocá-los em dúvida, aliás, é a estratégia preferida de líderes que almejam corroer a confiança em todas as fontes a não ser eles mesmos, como já conversamos aqui e aqui).

Ao criar no leitor a angustiante expectativa de um eclipse que pode ou não ter sido previsto por um especialista cuja capacidade de prevê-lo sequer é possível entender, o livro cria uma parábola interessante da vida moderna, despertando em nós o sentimento de estranhamento diante de uma realidade que, acostumados a ela que estamos, não nos inquieta mais.