Está dando o que falar a aprovação da agência regulatória americana de um novo tratamento para depressão. A Food and Drugs Administration (FDA), equivalente à nossa Anvisa, autorizou o uso de um remédio chamado Spravato, para aplicação nasal, em casos de depressão refratária – pacientes que continuam sofrendo com sintomas importantes após duas ou mais tentativas com medicações diferentes.

Começando pelo fim, não acho que a medicação se prove tão revolucionária como parece. Não é pessimismo. Bom, talvez seja um pouco. Mas todo tratamento novo se mostrou revolucionário no início. São novos mecanismos de ação propostos, mais eficácia demonstrada, menos efeitos colaterais, gerando entusiasmo durante alguns anos, até que com o tempo o acúmulo de dados vais deslocando os resultados para a média. Isso acontece não só com os remédios mas também com as técnicas de terapia, de estimulação magnética etc.

Conforme essas tecnologias vão se somando, contudo, é claro que a vida das pessoas melhora. Antigamente não havia antidepressivos; depois seus efeitos colaterais eram muito grandes; posteriormente eles melhoraram, mas demoravam para agir e não ajudavam todo mundo. Agora chega a ketamina, e seu derivado esketamina – o que foi liberado pelo FDA – e promete ser mais rápido e também eficaz para alguns casos refratários. Somando tudo é evidente que temos mais e melhores opções – mais gente acaba alcançando melhores resultados. Meu ponto é apenas que, ao contrário do que dão a entender as manchetes, não se trata da cura definitiva da depressão. Em pouco tempo acredito que descobriremos que esse tratamento é sim mais rápido, mas não tanto como imaginávamos, por exemplo.

Outro ponto que chama a atenção é a escolha da esketamina para ser liberada, e não a ketamina. Essa última já demonstrou efeitos antidepressivos em até mais estudos do que a primeira, então por que não foi liberada? Mais ou menos como no Brasil, nos EUA os médicos não estão proibidos de escolher livremente os remédios que indicam, independente do que diz a bula. Quando se descobre que um remédio para dor também ajuda a emagrecer, por exemplo, o médico pode passar para o paciente mesmo antes de as agências regulatórias atestarem formalmente essa ação – a bula serve para regulamentar a indústria, não os médicos. Ocorre que os planos de saúde não são obrigados a bancar tratamentos enquanto eles são off-label, ou seja, enquanto não estão na bula. Os pacientes pagam por conta própria. Uma vez aprovados pela FDA as operadoras podem ser chamadas a financiá-los (no Brasil isso acontece quando o tratamento entra para o rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS).

A esketamina é patenteada pelo laboratório Janssen Pharmaceuticals, Inc. Donde conclui-se que ela tinha todo interesse na autorização do Spravato pela FDA, já que tem muito a lucrar com isso. O lobby deve ter sido forte, ao contrário da irmã pobre ketamina, que por não ter patente não devia ter ninguém brigando por sua liberação.

Finalmente é importante lembrar que o tratamento da depressão idealmente deve ser multidisciplinar – os remédios são fundamentais, mas normalmente há tantos outros fatores além da química cerebral associados ao quadro – sejam como causa ou consequência – que quanto mais frentes de ação houver, como associação de psicoterapia, início de atividade física, alimentação adequada, maiores as chances de sucesso.

É bom que existam mais alternativas para tratamentos psiquiátricos – como para qualquer tratamento médico, aliás. Mas é importante tentar ajustar as expectativas para evitar uma injustificável corrida ao ouro.

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Leitura mental

É comum nós associarmos felicidade a sucesso na carreira, ganhos financeiros, casamento estável, filhos. Quando o engenheiro Mo Gawdat se viu cercado por tudo isso e ainda infeliz resolveu descobrir o que poderia trazer felicidade de fato. Nerd até o último fio de cabelo, pôs-se a estudar tudo o que podia, durante praticamente uma década, chegando ao que chamou de fórmula da felicidade. Poderia ser fácil para ele encontrar tal fórmula sendo tão rico e bem sucedido, imaginamos, mas pouco tempo depois seu filho de 21 anos morreu subitamente. E foi atravessando esse teste de fogo que ele resolveu colocar no papel sua descoberta, escrevendo A fórmula da felicidade (Leya, 2017). E vencendo o meu ceticismo, o livro de fato traz fórmulas oriundas das terapias cognitivas que, se não são infalíveis, são ao menos cientificamente testadas, como ajustar as expectativas, separar pensamentos e sentimentos, identificar o viés de negatividade e assim por diante. Nada revolucionário, mas de certamente de grande valia.