Acho que a atenção política que o crack vem recebendo está assumindo características de uma bolha especulativa. Sabe-se muito bem que quando um investimento começa a dar retorno vistoso mais e mais pessoas se interessa, por ele; essa corrida leva a uma supervalorização, atraindo mais interessados e elevando ainda mais aquele valor. Chega uma hora em que parece ser prejudicial – ao menos no curto prazo – estar de fora daquele movimento, e todo mundo passa a entrar. Até o momento em que tem gente demais, a maioria curiosos que não sabem direito o que estão fazendo ali, e então percebe-se que aquela sobrevalorização toda não é sustentável, estourando a bolha.

Hoje, ninguém quer ficar de fora da discussão sobre o crack. Vereadores, deputados estaduais e federais, párocos e síndicos, médicos e jornalistas, quem não estiver inserido no tema sente que está perdendo o bonde da história, deixando de se capitalizar com o que está na moda, e corre para entrar de alguma forma no debate. É evidente que se trata de um tema da maior seriedade e importância, e que políticas públicas têm de ser elaboradas, mas a corrida ao ouro que essa dinâmica de bolha estimula pode levar a propostas atabalhoadas, inócuas ou até mesmo prejudiciais.
Vejamos o caso da proposta de reservar cotas de emprego para dependentes químicos em tratamento, aprovada pela Câmara dos deputados.

A justificativa é de que estar empregado diminui o risco de recaída. É verdade. Mas o desemprego aumenta também o risco de depressão, doença que por ser muito mais prevalente traz mais custos do que a dependência do crack. Por que então não fazer cotas para deprimidos em tratamento? Aproveitar o momento de pleno emprego do país e integrar as políticas de trabalho e saúde pode até ser uma boa ideia, mas só a força atrativa de uma bolha especulativa explica porque direcionar tais esforços exclusivamente para o crack.

A superficialidade da proposta fica ainda mais evidente quando exclui das cotas os usuários que tiverem alguma recaída. Quem trata de dependência química sabe que recair é parte quase inevitável do processo. Isso é dito de saída para os pacientes, para que eles não desistam de tudo ao recaírem – tem que ficar claro que recair não significa que o tratamento deu errado, mas sim que deve ser mantido. Se os deputados quisessem ajudar os dependentes a se recuperar oferecendo-lhes empregos, a recaída deveria ser motivo para reforçar o vínculo trabalhista, não o contrário.
São leis assim que inflam o mercado de propostas para o crack. Por serem tecnicamente falhas, feitas às pressas, elas não se sustentam com o tempo, e logo essa bolha – como ocorre com todas – também estourará. Resta torcer para que o barulho do estouro afugente os interesseiros e sobrem apenas pessoas realmente interessadas no problema dos dependentes químicos. Só então começaremos a construir políticas mais sólidas.