Há alguns anos foi notícia o vídeo de um traficante ensinando a sobrinha pequena como fazer um assalto. “Dá uma coronhada nela. Assim, bate com o revólver.  Grita: ‘Me dá o dinheiro, boneca’.”, falava ele. “Dá o dinheiro boneca”, repetia a garota – de uns quatro anos – para a boneca. Era literalmente de embrulhar o estômago – lembro de ter sentido náusea quando vi a reportagem.

Não quero entrar no tema da criminalidade, propriamente dito, mas numa outra seara: a das brincadeiras. Desse ponto de vista, o choque produzido pelo vídeo se devia a pelo menos três aspectos. O primeiro era a subversão do sentido do brincar – a invasão da violência num momento que deveria ser lúdico por si só já incomodava. Em segundo lugar, todos sabemos que as crianças imitam o mundo adulto em suas brincadeiras. De uma forma simplificada eles replicam os comportamentos que os cercam, como que num ensaio ou treinamento para o mundo real. As cenas refletiam de maneira crua qual a realidade cercava aquela menina. Isso leva ao terceiro ponto: dentre suas muitas funções, as brincadeiras preparam as crianças para a vida adulta, ensinam-as a assumirem e desempenharem papeis, incutem ideias sobre como as coisas funcionam. Conclusão trágica: essa garota estava aprendendo a ser criminosa.

Na semana passada uma das polêmicas da internet era justamente a da mãe que presenteara o filho com um jogo de panelas. A mulher disse ter sido criticada pela própria mãe, avó do garoto, para quem aquilo era brinquedo de menina. Coincidentemente ou não, pouco tempo antes a apresentadora do programa Bem Estar, Mariana Ferrão, contara no Instagram a experiência de comprar uma boneca para brincar com os dois filhos meninos. Segunda ela os garotos adoraram a brincadeira de alimentar e cuidar da “criança”.

O tema é realmente terreno propício a polêmica. Porque se a brincadeira reflete o mundo adulto e prepara as crianças para ele, ao restringir as bonecas e panelinhas às meninas estamos dizendo que o cuidado dos filhos e da casa é de fato uma tarefa de mulher. E como podemos desejar que os homens dividam essas funções quando adultos (e não meramente “ajudem” as mulheres) se eles passam a infância inteira apendendo esse modelo? Por outro lado, há evidências de que existem diferenças entre gêneros nas preferências por brinquedos que não são apenas atribuíveis à cultura. Ou seja, afirmar que brinquedo pode ter gênero não é errado se estivermos nos referindo às diferenças que existem entre as crianças – de forma geral, não absoluta – nos brinquedos de que gostam (e que não são apenas resultado da cultura).

Mas não dá para concordar que existe brinquedo de menino e de menina quando o que se quer é impedir – ou desestimular, ao menos – garotos de brincar de casinha ou meninas de herói; sobretudo porque não é esse o mundo adulto que desejo que nossas crianças encontrem e construam.

***

Leitura mental

Porque nos comportamos como comportamos? Será que a cultura molda nossa personalidade, ou seria o contrário? O estudo do papel da sociedade – seja por meio da influência dos pares, da construção de uma visão de mundo, da premiação de determinados valores etc. etc. – na origem de nosso comportamento faz parte da fascinante área da psicologia social. As questões de gênero, por exemplo, trazem a questão dos estereótipos -fenômenos vivenciado por todos nós no dia-a-dia, mas que podem ou não dar lugar a preconceitos. Essas e outras diferenças são esmiuçadas no Psicologia Social para leigos, de Daniel C. Richardson, lançado no Brasil esse ano pela Alta Books. Como outros títulos da coleção, ele traz uma abordagem que, sem abrir mão do rigor, é acessível mesmo a leitores não versados na área. Ou seja, os leigos como nós.