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Você está andando à noite, numa avenida central em sua cidade, quando vê, andando em sua direção, um homem em trajes simples, com andar cambaleante. Você está atrasado para um encontro, olhando o relógio e angustiando em sua corrida contra o tempo, mas ao se aproximar do homem você ainda assim nota que ele tem a fala empastada, e na pouca luz da rua percebe que ele se equilbra com dificuldade. Ao passar rápido por ele, antes de conseguir compreender exatamente o que ele está tentando dizer, qual a sua primeira hipótese?

Não sei você, mas eu confesso que a primeira coisa que passa na minha cabeça é que se trata de alguém embriagado, que irá me pedir dinheiro. E mais: minha reação inicial será de medo.

Dentre os muitos que erguerão suas vozes para me acusar de preconceituoso, aposto que muito poucos não cairiam no mesmo erro. E embaso esse palpite numa característica comum a todos os seres pensantes: o uso de estereótipos.

A criação de estereótipos é uma estratégia heurística – ou seja, uma forma de chegarmos a conclusões usando atalhos cognitivos quando há necessidade de tomada de decisões rápidas, ou diante de informações insuficientes (I). Embora muito útil, já que seria impossível viver analisando e deliberando longamente diante das milhares de pequenas e grandes decisões que tomamos diariamente, tais atalhos muitas vezes conduzem a erros, chamados então de erros cognitivos. Nossa tendência humana a classificar as experiências leva-nos a colocar indivíduos assemelhados em alguns aspectos em grupos pré-determinados. E dada a disponibilidade das vivências que temos, das nossas experiências, contexto e cultura, um homem cambaleante com voz pastosa se dirigindo a mim no meio da noite numa cidade grande cai, automaticamente, no grupo embriagados pedindo esmola, mesmo que eu não queira.

No estudo citado (I), uma população urbana aleatoriamente entrevistada opinou que, com relação a criminalidade urbana, roubos são cometidos por homens (98,3%), sendo que 58% deles são negros; 69,6% encontram-se na faixa etária dos 19 aos 25 anos; 79,7% estão desempregados; 53,6% possuem o Ensino Fundamental incompleto; 54,7% estão sob efeitos de álcool e / ou drogas no momento em que cometem o delito. De onde vem tal percepção? Não se pode imaginar que os entrevistados sejam todos racistas ou preconceituosos convictos. Ocorre que a maioria das pessoas envolvidas em atos ilícitos apresenta alguma das características apontadas. O grande problema é o raciocínio se inverter – a maioria dos assaltantes ser pobre não quer dizer que a maioria dos pobres é assaltante. Parece óbvio, mas quando a mente toma atalhos, como nas estratégias heurísticas, o “modo automático” do cérebro pode passar por cima do óbvio e levar a conclusões erradas.

Estar consciente disso é fundamental para evitarmos tais armadilhas, mas nunca estaremos livres delas. Foi exatamente o que aconteceu num episódio recente do programa O Aprendiz. Um dos participantes, Ramón Ronê, estava sob pressão, servindo café na Avenida Paulista à noite, quando um homem simples, negro, cambaleante e falando mole furou a fila. Ramón o colocou na mesma categoria que eu, naquele exemplo do começo, para só depois descobrir que se tratava de um senhor deficiente físico. Ele foi duramente criticado por isso e quase acabou demitido. A meu ver, de forma injusta e hipócrita: injusta, porque mesmo achando que era alguém embriagado, não foi rude, só o orientou a pegar a fila como todos e posteriormente se corrigiu; e hipócrita porque a imensa maioria de nós – incluindo João Dória Jr., Cristiana Arcangeli e David Barioni – teria cometido o mesmo erro cognitivo. Cometer erros cognitivos é humanamente inevitável; esse não é o problema, desde que tenhamos a grandeza e humildade em admiti-los e prontamente corrigir o possível.

ResearchBlogging.org A. P. WORMHOUDT; M. S. TOROSSIAN; S. MARQUES (2006). VIOLÊNCIA URBANA: ESTEREÓTIPO DO AGRESSOR E DA VÍTIMA Psicólogo inFormação, 10 (10), 9-29