No final de 2019 uma das perguntas mais frequentes que eu ouvi foi como fazer as pazes. Senti que havia uma demanda por restabelecer relacionamentos, reaproximar pessoas, estreitar laços que se tinham afrouxado. Imagino que as festas do fim de ano de 2018 – marcado pela polarização nas eleições – tenham sido marcadas por tantas tensões que dessa vez amigos e familiares não queriam briga.

Ótimo. Só que esse ano teremos novamente eleições. E não precisamos esperar chegar perto para saber que será uma campanha agressiva de todos os lados, criando um caldo de cultura propício para novos estremecimentos nas relações.

Coincidentemente eu havia feito uma resolução de ano novo que, dado o cenário, acho que pode ser útil compartilhar. Eu havia decido não brigar. Motivado principalmente pelo objetivo de criar um ambiente doméstico  saudável, propus a mim mesmo – e dividi com filhos e esposa – o propósito de não brigar. Já adiantei que isso não significava deixar as crianças à vontade para fazer o que bem entendessem. Regras de convívio, de educação, obrigações domésticas e escolares, nada disso mudaria. Mas sinceramente – e só para ficar num exemplo – se o moleque quebra uma coisa em casa, se a menina estraga outra, adianta entrar numa briga? A querela não conserta o que se quebrou nem evita novas ocorrências. Haverá consequências pelos comportamentos impróprios, claro, mas sem raiva, sem hostilidade. Sem briga.

Assim como o leitor pode estar fazendo, eles riram, céticos. Mas eu acredito tanto nisso que resolvi transformar a decisão num projeto, como fiz em 2016 quando dividi com os leitores os fracassos e sucessos na busca por um dieta saudável. A partir de agora, portanto, minha resolução de ano novo para 2020 – não brigar – é pública. Comprometo-me a compartilhar nesse espaço as vitórias e as derrotas, incluindo as recaídas e recomeços.

Pelo pouco que conheço da comunicação não-violenta acredito que ela seja um excelente ponto de partida para essa jornada. Convido a todos a participar dela, seja na torcida, seja caminhando comigo em direção a um lugar pacífico. Quem sabe assim estejamos de bem nas festas desse ano, não precisando esperar o Natal de 2021 para de novo fazer as pazes.

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Leitura mental

Esse será o ponto de partida da jornada, algo como um guia de viagem. O guia não é o lugar em si, mas uma ajuda preciosa para chegar lá e desfrutar melhor as possibilidades da aventura. Vivendo a comunicação não-violenta : Como estabelecer conexões sinceras e resolver conflitos de forma pacífica e eficaz (Sextante, 2019), de Marshall Rosenberg, é um livro introdutório para essa que é tanto uma técnica como uma postura de vida. Rosenberg a desenvolveu trabalhando com integração racial nos anos 1960, nos EUA, o que impunha grandes desafios para a comunicação e cuja vivência era marcada pela violência, obtendo resultados muito positivos . A partir daí passou a aplicar a técnica em diferentes ambientes, notando que ela de fato ajuda nas relações em diversos contextos. Nesse livro ele apresenta ao leitor uma visão não-técnica, acessível a todos que queiram de fato “estabelecer conexões sinceras e resolver conflitos de forma pacífica e eficaz”.