Ser coerente não é bolinho. E não necessariamente por querermos sê-lo, o seremos. Dizem que somos o que comemos, o que lemos, o que falamos, o que consumimos. Mais do que possamos pensar ser, somos aquilo que conseguimos botar no mundo, fazendo a roda girar. Pode ser numa atitude delicada e observadora, trazendo calma ao mundo. Ou ainda numa ação transformadora, na força que move montanhas, nas pontas de lança que tanto expandem territórios de maior conforto para todos nós. Não há um jeito melhor ou certo, cada um de nós tem algo a expressar. O importante é descobrirmos a nossa voz e soltá-la com liberdade e espontaneidade.

Mas o difícil mesmo é encontrarmos uma sintonia entre o que queremos ser e o que conseguimos ser. Desejar cuidar do planeta e da humanidade sem tirar esse pensamento da pré-ocupação, sem levá-lo para uma ação efetiva, não nos faz sustentáveis, por exemplo. Apesar de a ideia do zelo estar em nossa mente e nos sensibilizar, se não fazemos aquilo que acreditamos, vivemos uma cisão existencial que cedo ou tarde vai nos perturbar.

Somos tantas coisas ao mesmo tempo, e tantas vezes temos características e tendências pessoais tão díspares, que a busca de uma ação que encontre esse equilíbrio de forças e nos permita uma maior congruência é, de fato, sem fim – como Merleau-Ponty afirma, “a expressão do que existe é uma tarefa infinita”. Aquilo que somos irá, inevitavelmente, se materializar no mundo. E nossa casa talvez possa ser a expressão máxima, nosso envoltório primeiro e menos polido pelo receio do olhar do outro – e bem sabemos que nem todos nós conseguimos nos libertar dessas pressões da expectativa social e ter um lar que expresse seu íntimo. E ainda assim, isso conta muito de quem somos, não?

Falo de busca, de encontro, de desejo, porque caminhamos a maior parte da estrada sem bússola e não podemos parar. Reduzimos o ritmo, encontramos regatos aprazíveis para nos deleitar em pausas eventuais, mas a vida segue, se não no espaço, no tempo. Deslocamento incessante. E vamos agindo, produzindo, escolhendo. Não pensar, não cuidar, não se importar, é também uma escolha. Tantas vezes essas feitas em nossos recônditos pouco explorados mas, ainda assim, partes de nós.

Por vários anos fui porta-voz de formas sustentáveis de constituirmos uma casa, um lar. Eram os primórdios dessa consciência de que tínhamos que cuidar do nosso jeito de estar no mundo, sermos menos agressivos ao meio ambiente, sermos mais responsáveis com o que consumíamos e com o que descartávamos. Mas sempre reconheci que mesmo dentro dessa vivência consciente, eu mesmo mantinha hábitos desrespeitosos e pouco compatíveis com as preocupações que me povoam. Meu banho sempre foi, e segue sendo, longo. Gasto água de forma irresponsável quando o assunto é deixa-la cair sobre o meu corpo diariamente. Sei disso, mas não transformei esse costume. O privilégio me torna mais irresponsável ainda. Vivo numa área onde o racionamento jamais me afetou, há suficiente água na caixa para que o abastecimento cesse por dias e, apesar disso, o tempo do meu banho não precise ser reduzido. E isso é uma injustiça, eu também sei. E ainda assim, não mudo. Até quando? Resposta difícil de dar. Mas acredito muito que somos uns cuidadores dos outros. Não fiscais chatos, mas temos a responsabilidade de nos lembrarmos com constância das boas práticas e de como podemos melhorar nossa relação com o mundo.

Meu namorado introduziu em minha vida uma composteira doméstica. Sempre dizia que queria ter, mas nunca me mobilizei de verdade. Esse desejo ficou por anos no discurso, na fala que acreditava piamente que já era. E não era. Ele me ensinou a compostar, e hoje compostamos juntos, vejam vocês que romântico! (risos) Entendemos a fragilidade desse micro ecossistemas quando o vemos entrar em desequilíbrio, quer seja pelo excesso de humidade ou pela infestação de alguma população agressiva às nossas meninas minhocas. E assim caminhamos lado a lado, compartilhando as nossas preocupações, cuidados e limites, um ajudando ao outro no alargamento do espaço de coerência em nossas vidas. Tentando, devagar e sempre, fazer do que falamos, o que fazemos.

Minha compostura doméstica. Foto: Gustavo Calazans