Sentar confortavelmente e assistir uma boa série é, para muitos, uma experiência que os aproxima do que se possa considerar um lar. Para que a experiência aconteça, o mais importante é a familiaridade com o conteúdo acessado. O sofá pode ser substituído por uma poltrona de avião ou por uma cadeira num café qualquer, mas a série que está sendo assistida, e com a qual se criou uma estreita relação de proximidade – algo que mais se assemelha a um simulacro de cumplicidade -, essa é fundamental para fazer com que sejamos transportados para esse espaço/tempo de acolhimento.

Já fui um viciado em séries, mas nas dos anos 90. Friends, Seinfeld, Will and Grace, adorava todas. Na época lembro de ser julgado por várias pessoas que não entendiam essa relação maluca que se estabelecia entre aquele enlatado televisivo e nós, seus fãs. Estranhamente, não assisto mais séries. Perdi o interesse, e não consigo de forma alguma explicar por que isso se sucedeu. Não tenho nem palpites, e nem me preocupo em buscar uma justificativa. Mas o fato de não encontrar mais tanto prazer nesse programa tão popular nos dias de hoje me permite olhar de volta para muitos dos que me criticavam – e que hoje são aficionados em séries – e a tentar refletir por que será que somos tão tomados por esse gênero de entretenimento.

Hoje mesmo recebi mensagens num grupo de família em que se comentava sobre muitos estarem chegando próximos do fim de Merlí, da Netflix. Enviei uma mensagem um tico spoiler de que deveriam preparar seus lencinhos de papel, pois meu marido já chegou ao fim e, pelo que soube, com lágrimas correndo em seu rosto. O final emocionante já deixou muitos do grupo excitados e apreensivos, enquanto outros anunciavam que assim que terminassem de assistir a já antiga Breaking Bad, pegariam firme em Merlí.

Assim como ler um bom livro nos dá, em suas últimas páginas, aquela vontade de enrolar para não nos afastarmos daquele mundo que não é nosso, mas que tomamos emprestado como porto seguro temporário, a sensação que tenho é a de que as séries e seus personagens vão se alternando na vida das pessoas e supostamente enriquecendo seus cotidianos de relacionamentos complicados que não são os seus – mas poderiam ser – ou ainda de passagens felizes que também não lhes dizem respeito, mas que naquele momento de conforto em frente à TV, ao computador ou ao smartphone, sente-se como se dissessem.

E não apenas se abre um portal de pertencimento quando estamos diante dessas séries, como também nos sentimos virtualmente habitantes dela. Há poucas semanas tenho assistido a série Transparent pela Amazon. Como meu marido gosta de séries, resolvemos eleger uma para que assistamos juntos. Transparent é a bola da vez. E é incrível. E praticamente me sinto vivendo naquela linda casa modernista em Pacific Palisades, Los Angeles. Quando sinto saudades dela, é só propor uma sessão extra da série – que por fidelidade, só programamos teletransporte conjunto – e de volta somos catapultados para lá. Reconheço que saber que faltam menos de 12 capítulos para chegarmos ao fim das temporadas todas já me causa uma tristezinha. Cá estou eu também refém dessa familiaridade proporcionada pela maluca cultura seriada dos nossos tempos. Me sentindo em casa enquanto assisto mais um episódio deitado numa cama de hotel.

A linda casa modernista em Pacific Palisades, cenário da série Transparent da Amazon. foto: divulgação