Nesta semana me peguei instintivamente limpando uma planta que tenho na varanda – estava no caminho para fazer outra coisa, quando olhei suas folhagens amarelas e não me contive. Ao fazê-lo, me veio à mente que lares são casas onde o cuidado é notável. Não precisa ser o cuidado obsessivo de quem não aguenta ver a casa em desordem e nem o cuidado excessivo com a aparência, onde tudo precisa estar sempre lindo. Basta uma delicada demonstração de afeto com as coisas que nos rodeiam.

O cuidado afetuoso pode estar num vaso de flores colocado sobre a mesa da sala de jantar, ou na luminária de luz quente direcionada sobre uma confortável poltrona de leitura. Engraçado pensar que essas duas cenas podem ser exemplos de atenção e, ao mesmo tempo, de simulação de atenção. Ao me deparar com um florista no caminho de volta para casa e pensar ‘hoje meus amigos vão jantar em casa, vou presenteá-los com flores bonitas sobre a mesa’, estou cuidando do meu ambiente para que ele cuide de quem eu amo. Se essas mesmas flores fossem colocadas sobre essa mesma mesa todas as semanas, sem que eu sequer reparasse ou participasse do processo, ou se tornasse uma ação automática, a mesa florida se transformaria em simulacro – nesse caso a necessidade de me mostrar cuidadoso seria mais premente do que o cuidado propriamente dito. Assim como a luminária sobre a poltrona de leitura, caso eu não gostasse de ler, representaria igualmente um descolamento da realidade. O afeto com a casa aqui se diferencia da preocupação com a aparência da casa.

A beleza no amarelar das folhas. Foto: pixabay.

As folhas amarelas da minha planta não eram nem bonitas e nem feias. Simplesmente estavam amarelando. Pensei, ao retirá-las, que a planta deixaria de gastar energia com essas folhas. Naquele momento, talvez tenha pensado no bem da planta. Não me passou pela cabeça, ‘nossa, os outros vão achar meu jardim desleixado’. Mas poderia. Nenhum de nós está livre dessa preocupação e ‘esses outros’ que habitam as nossas mentes – e que tanto cultivamos – são sempre impiedosos. O julgamento próprio travestido dos ‘outros’ nos afasta do amor próprio e, sem nos gostarmos, não tem como tratarmos bem o espaço que ocupamos.

Isso só confirma que afeto é conceito fundamental para entendermos a qualidade acolhedora de um lar. Conexão afetuosa que transborda de dentro de nós e das nossas relações, se derramando pelos ambientes e neles reverberando seus melhores reflexos. Tendo a casa como suporte material para o seu desdobramento no tempo, o carinho deixa marcas em nossa memória.

Eu me lembro que foi na mesa da copa da casa da minha avó onde tive algumas das melhores experiências gustativas da vida, daquelas que até hoje guardo na lembrança. A do doce de ovos queimados – uma espécie de doce de leite feito junto com ovos mexidos – se espalhando pela minha boca carrega uma sensação tão boa que até hoje busco sua reprodução. Tentei inúmeras vezes acertar o ponto da receita, outras tantas vezes pedi que minha mãe tentasse, achando que a proximidade hereditária aumentasse as chances de sucesso. Em vão. Assim como o doce nunca mais foi o mesmo, a sensação espacial da copa da minha avó também jamais será reprodutível. Mas o amor que encontrei ali, misturado em porções equilibradas de açúcar e afeto, ficou plasmado em minha alma. Sou visitado por esse sentimento em certas ocasiões, sem que saiba explicar a razão desse repentino ressurgimento. O fato é que as emoções criam paralelo com essa experiência primeira e num átimo me conecto com meu passado. Guardadas no baú da vida já vivida ou nas pinceladas frescas do quadro da nossa história, nossas memórias emocionais nos ajudam a encontrar nosso lugar no mundo. E a entrega para sentir e a coragem para entrar em contato com nossas emoções mais profundas são pistas importantes para encontrarmos a trilha que nos levará a um lar cheio de afeto.