Acordar sem despertador, deixar os olhos irem se abrindo com vagar, a luz incidindo lentamente na retina e o corpo se espreguiçando da ponta do pé ao estalar do pescoço. Virar-se de lado na cama e delicadamente colocar a coluna ereta, enquanto as pernas rotam e atingem o chão, levando o peso a plantar-se no piso de temperatura tépida. Meditar alguns minutos, alongar os músculos por instantes. Sorrir carinhosamente para quem encontrar no trajeto até a cozinha, feição plácida, coração tranquilo. Beber um copo de água morna com limão, outro de água de kefir. Preparar suco verde, comer frutas com castanhas e cereais com mel. Duas fatias de pão integral e um queijo maroto, que ninguém é de ferro.

Nosso corpo é nosso primeiro lar. A rotina descrita acima seria o meu ideal matinal, com o qual eu me sentiria cuidando da melhor forma possível da minha morada corporal. Claro que não consigo fazê-la acontecer todos os dias exatamente da mesma forma, afinal de contas o cuidado também pressupõe considerar nossos ritmos e oscilações. Mas se conseguir seguir passos semelhantes aos colocados acima em meu cotidiano, já me vejo feliz. O zelo com o corpo permite que essa sensação de bem-estar extravase pelos poros, avançando sobre as pessoas queridas, as plantas e os animais que adotamos, e por que não, a nossa casa concreta e seus badulaques. Assim como a máxima ‘gentileza gera gentileza’, me permito dizer que ‘cuidado gera cuidado’.

Mas nem só de corpo vive o homem, e exercitar a cuca é igualmente fundamental. A mente é, aliás, uma parte do corpo. Com todos os nossos neurônios e sua rede de ligações excitatórias, conseguimos coordenar todas essas atividades de proteção à vida e tantas outras. Quanto mais ‘elegantes’ forem nossas sinapses, mais equilibrados estaremos para experimentar a vida com prazer e satisfação. O que resulta na conclusão de que sentir-se em casa na vida está profundamente associado à noção de bem-estar.

Estar de bem com a vida também pressupõe que nosso entendimento dela seja amplo, alargado por conceitos mais libertos e menos restritivos. A sacralidade da existência, uma dimensão que cada um de nós desenvolve e exercita de maneira particular e individual, aconchega assim a nossa essência. Desse modo, corpo e mente se tornam também a casa do nosso espírito. Como uma serpente de energia, podemos senti-lo fluindo por nosso eixo numa pulsão de energia do indizível. Somos então ao mesmo tempo agentes e testemunhas do mistério da vida.

Se estamos à vontade em nosso ser – corpo, mente e espírito – maior a probabilidade de encontrarmos conforto na concretude do espaço que nos acolhe, seja ele qual for. Recuperar a expressão ‘excitatório’ das ligações neurais acima expostas nos demonstra a força que pode haver na vibração de positividade que somos capazes de gerar. Somos agentes  que estimulamos nosso entorno, assim como a nós mesmos.

Visitas regulares às nossas casas interiores – nosso organismo, nossa psique e nossa dimensão inominável da alma – são a única forma de ganharmos maestria sobre o nosso ser e a nossa existência. Quanto mais formos capazes de mergulhar dentro de nós mesmos com persistência e determinação, curiosidade e respeito, mais próximos estaremos da construção de um lar exterior que nos garanta a reverberação do bem-estar que vamos conquistando internamente.