Construir um lar, no geral, não é uma experiência solitária. Casais ou famílias, cohousings ou repúblicas, em casas divididas com amigos ou parentes, e tantos outros formatos possíveis de convivência debaixo de um mesmo teto comprovam que o projeto de um lar é fruto de muita negociação e concessão entre as diferentes partes envolvidas.

Se encontrar caminhos que permitam que a ocupação do nosso espaço pessoal seja reflexo de quem somos e das nossas crenças existenciais já é um exercício que exige uma profunda capacidade de escuta interior, quando pensamos na construção de um lar que será compartilhado, essa escuta precisa ser ajustada, modulada e amplificada. Ser capaz de entender nossas próprias necessidades e encontrar caminhos efetivos para supri-las já é um feito e tanto nessa vida. Conseguir afinar a nossa percepção para entender onde o nosso querer possa entrar em rota de colisão com o querer daqueles que escolhemos para dividir o caminho da vida se torna fundamental. Isso, claro, se quisermos como resultado, um lar autêntico – um em que cada individualidade seja respeitada e esteja sempre representada.

Na minha profissão acabo acompanhando muitas pessoas nesse processo de criação coletiva. E devo reconhecer que para mim, até hoje, ele segue um enorme desafio. Encontrar mínimos denominadores comuns que façam todos razoavelmente satisfeitos não é fácil. Garantir que todos tenham voz, e que as vozes dos que falam mais baixo sejam ouvidas na mesma medida daqueles que gritam requer uma escuta atenta – para não se atordoar diante dos altos tons e não deixar que os sussurros passem desapercebidos.

foto: pixabay

Há sempre um jogo a ser jogado quando pensamos no resultado de algo construído coletivamente. A vida, afinal de contas, é uma grande brincadeira de experiências e sensações – que envolvem, além das satisfações, as frustrações, obviamente. Embora saibamos que nem todos serão atendidos em todas as suas demandas, é importante que nenhuma demanda fundamental seja deixada de lado. Com isso, o exercício de irmos para a raiz das nossas necessidades se torna um mecanismo de salvaguarda e de atenção ao que nos seja caro. Dentre os muitos quereres que possamos intuir em nós, alguns deles são básicos e estruturantes. Destes, muitos serão coincidentes com nossos parceiros, outros não. Sabermos o que jaz nas fundações do nosso querer permite que entendamos exatamente pelo que devemos lutar – e com isso, evitemos entrar em inúmeras disputas desnecessárias.

Ao mesmo tempo, se viver junto é um desejo que compartilhamos com essa(s) pessoa(s), devemos igualmente nos esforçar para entender aquilo que dá sustentação à vida do outro. Estarmos satisfeitos pressupõe que aqueles que amamos também encontrem a satisfação. O placar dessa gincana coletiva na elaboração de um espaço comum deve sempre mostrar que todos os lados estão ganhando. Relações ganha-ganha são a única forma sustentável de vivermos juntos.

Não nos perdermos no toma lá, dá cá das trocas institucionalizadas nesse país e aprendermos a desenvolver uma escuta atenta de si mesmo e do outro, essa me parece a única forma de criarmos uma nova cultura do bem conviver. Negociações e concessões sempre serão importantes, como já disse antes, mas só devem ser feitas à luz daquilo que seja bom e justo para todos – e não apenas num troca-troca entre aqueles que já tem suas vozes escutadas, na maioria das vezes abafando as vozes de outros tantos.

Que aprendamos a escutar.

foto: pixabay