As casas sonhadas desde a infância. Foto: Gustavo Calazans

Todos sonhamos, e sonhos são parte fundamental da nossa existência. É muito importante termos objetivos que possam, em um primeiro momento, parecer inatingíveis, mas que nos façam mais ávidos e persistentes em persegui-los. Exercitar os músculos que nos levam ao que desejamos nos faz mais hábeis em reconhecer nossas vontades e impulsos interiores, e assim nos tornamos mais espontâneos e potentes face às agruras do mundo. Só que essa conexão íntima, por vezes avessa às frustrações, também deve nos levar à compreensão e ao entendimento das negociações necessárias para que sonhos sejam moldados à realidade. Ir além do que acreditamos que seja possível sem, no entanto, ultrapassar limites efetivos – entendendo que, das limitações que enxerguemos, algumas sejam reais e outras ilusórias; ou mais do que isso, algumas expansíveis e dilatáveis ao passo que outras não. E haja jogo de cintura e autoconhecimento para dançar no meio dessas possibilidades.

Tenho para mim que a arte da negociação encontrou nos conceitos da Comunicação Não-Violenta um arsenal sem fim de possibilidades e soluções, lembrando sempre da necessidade de mantermos o diálogo fluído quando o interesse maior é manter a conexão apesar das dificuldades e obstáculos no caminho. O método, desenvolvido pelo norte-americano Marshall Rosenberg, se baseia na ideia de que a escuta empática e a fala autêntica são instrumentos capazes de nos manter conectados ao que está vivo no outro e em nós mesmos, nos tornando também mais aptos a compartilhar essas pulsões entre nós de modo a encontrarmos mínimos denominadores comuns que evitem os possíveis conflitos. A teoria se baseia na noção de que todos temos as mesmas necessidades básicas universais que envolvam, por exemplo, o provento de subsistência, proteção, descanso, interdependência, autonomia, diversão, sentido, compaixão. Só que cada um de nós encontra em diferentes estratégias o modo de obtê-las, cada um com seu entendimento particular do que e como alcançar suas metas. E seria justamente no espectro dessa diferença nas estratégias que residam os conflitos. Isso nos ajuda a entender muitas das divergências que possam aparecer quando pensamos na interação entre as pessoas e me parece claro que o diálogo apareça como a melhor solução.

O que dizer quando estamos em movimento de negociação com a gente mesmo e com os nossos sonhos? Digo isso por que percebo claramente que antes de irmos para a rodada de conversa com o outro, é preciso que tenhamos um diálogo franco e aberto no cerne do nosso ser. Devemos manter um radar ligado para o que sentimos e o que precisamos antes de compartilhar qualquer dessas necessidades e impressões com o outro. O poder do diálogo interior é chave para a expressão autêntica tão necessária à troca com os demais. Podemos construir uma correlação exata desses conceitos de CNV para entender que é preciso uma escuta empática própria, consigo mesmo, reduzindo o volume de fora ou mesmo dos nossos pensamentos e de tantas vozes que possamos ter dentro de nossos ouvidos para tentar acessar aquela que venha do mais profundo de nós. Lembro das propagandas clássicas que mostravam um diabinho num ouvido enquanto no outro havia um anjo, cada lado recebendo instruções opostas. Só consigo pensar que temos muito mais do que apenas duas vozes ao pé do ouvido, e que realmente de boas intenções o inferno está cheio – ou seja, não há diabos ou anjos, apenas ruído do que não está no centro do nosso propósito.

Um lar é literalmente o espaço de maiores expectativas que possamos ter. É onde nos sentimos acolhidos, quer seja você alguém que encontra esse acolhimento em um quarto, em uma mansão, em um a moradia compartilhada ou no mundo inteiro – para não me esquecer dos meus queridos amigos nômades. E talvez o maior sonho de todos seja o de encontrarmos o conforto perdido desde o nascimento, aquele que nos nutria sem que precisássemos pedir por nutrição. A esse se unirão diversos outros, sempre protegidos e regidos por nossas crenças e ideais, algo que vamos construindo lentamente, primeiro como linhas, depois como cercas, até que alguns não parem de subir se tornando muros intransponíveis. E é com esses que teremos que dialogar incessantemente se quisermos transpor nossos sonhos à realidade.