Lembro até hoje de ver minha mãe na sala de estar afofando as almofadas do assento do sofá, daquelas preenchidas de penas de ganso, bem estufadas, no que se assemelhava a uma cerimônia. Ela passava pelo ambiente com olhar atento, penteava as franjas dos tapetes, se certificava de que os enfeites estivessem nos locais adequados. Era preciso que a sala estivesse sempre arrumada, alerta ao menor sinal de que algum visitante pudesse aparecer de improviso. A sala de visitas era pensada, afinal de contas, para as visitas. Na ausência delas, ela ficaria ali, isolada, praticamente sem vida. No máximo um abajur aceso ao canto, o que a deixaria na penumbra – um quase não convite: por favor não ultrapasse.

A casa da mãe. Foto: arquivo pessoal.

Não era assim só lá em casa e minha mãe não vivia essa neura sozinha. E muitos ainda vivem em casas onde a ordem e a aparência estão acima da noção de pertencimento e de apropriação. Desde cedo essa exclusão dos próprios moradores do maior cômodo da casa me deixava muito confuso. Por que raios tínhamos mesmo que nos espremer num quarto menor, pernas empilhadas assistindo TV, quando atrás daquela parede havia uma sala com tanto espaço? Por que o outro teria maior importância do que o eu (ou o nós) em tantas casas?

Reservar o melhor espaço da casa para o outro é, antes de um gesto de grande generosidade, indício do poder delegado ao julgamento de quem nos observa. E além disso, o peso dado ao olhar do outro automaticamente diminui a minha capacidade de apropriação real e efetiva sobre meu espaço. Se a sala vive à espera da chegada de alguém que não sou eu, quando chego, não posso usufruir dela com liberdade. Liberdade essa que tanto nos faz falta e que não é acessível a muitas pessoas. Verdade seja dita, poucos tem espaço de sobra para deixar algum sem uso, então essa questão poderia ser apenas papo de gente rica. Mas não é. Isso por que todos compartilhamos certos desejos simplesmente por vivermos numa dada época, num dado lugar. Portanto não se trata de possuir efetivamente esse ambiente-fetiche, mas do desejo de tê-lo.

Sou fã da série de televisão britânica Downton Abbey. Ela retrata a vida dos Crawley, uma família aristocrática do começo do século XX, e de seus funcionários. Vivem num tempo em que as mulheres abastadas eram trocadas por suas criadas: lhes tiravam as jóias, as roupas e se bobear, davam-lhes até banho. As cenas transcorrem em cenários produzidos com esmero, dentro de uma grande propriedade palaciana onde, embora todos circulem com grande desenvoltura, parece haver um constrangimento constante no ar. Apesar de proprietários da mansão, não consigo imaginar Lady Mary, a primogênita dos Crawley, e nem seus familiares, rolando nos tapetes orientais da casa com os herdeiros da família. Há um código de conduta que não permite a apropriação dos espaços de forma liberta – e me parece que a forma como os espaços são não contribui em nada com a flexibilização dessas relações: chegar em casa, tirar os sapatos e deixa-los logo na entrada, deitar sob a manta já aconchegada sobre o sofá e pegar o livro que estava te esperando desde a noite anterior. Essa cena jamais será vista numa casa em que o protocolo é mais importante do que a liberdade.

Residência inglesa no estilo do cenário da série britânica, Downton Abbey. Foto: Pixabay

 

É impressionante como nossos costumes são, por vezes, tão pouco apropriados aos tempos que se anunciam e, por outro lado, tão difíceis de se escapar. A falta de intimidade dos Crawley em sua mansão nos ajuda a entender um pouco melhor a idolatria da mãe a sua sala de estar. No lugar da preocupação excessiva com o outro, devemos ser nossos melhores anfitriões e ao mesmo tempo nossos convidados mais esperados. Status de lar comprado como se fosse um título de nobreza está mais para casa para inglês ver.