Rua principal da Ilha do Ferro, interior de Alagoas. Foto: Diego Cerviño Lopez

Percorrer estreitas estradas esburacadas debaixo de um sol escaldante, penetrando o Brasil profundo, atrás de conhecer a experiência de uma comunidade que busca na arte mais do que lhes foi tirado com a escassez dos peixes no rio São Francisco. Essa foi a deliciosa aventura dessa semana. São mulheres e homens, pescadores e pedreiros, trabalhadores dos canaviais e donas de casa que, diante da dificuldade de encontrarem uma forma digna de sobrevivência em seu lar natal, a simpática e delicada vila da Ilha do Ferro, em Alagoas, descobriram no mergulho criativo uma saída para a precariedade material.

Seguindo os passos de Fernando Rodrigues, filho de um fabricante de tamancos que descobriu já na vida adulta o fazer artístico, uma linhagem impressionante de artistas únicos se desenvolveu, cada um com uma linguagem própria e um estilo bem definido. Aberaldo, Salvinho, Dedé, Morena, Faguinho, Eraldo, Vieira, Vandinho, Walmir, Vavan, Cícero, Zé Crente e muitos outros escondidos detrás das delicadas fachadas das casas simples. Seu Fernando, como era conhecido, inventou não só móveis e peças lindas, criou um movimento dentro da pequena vila, cultivado diligentemente por anos como quem cuida de um roçado, criando espaço para que hoje eles tenham todo nosso respeito e a admiração.

A oficina de Salvinho. Foto: Diego Cerviño Lopez

Mais do que lindas peças de arte popular, o que encontrei foram lindas histórias de pessoas comprometidas com uma forma alegre de encarar a vida. Seus lares abrigam o seu fazer, e é num espaço contíguo às suas casas onde podemos encontrá-los laborando sobre a madeira, pintando bonecos e pássaros entalhados com maestria, ou ainda orgulhosamente nos apresentando suas últimas criações. Eles vivem com pouco, mas tem muito a oferecer. Fui recepcionado por Rejânia, filha de Seu Fernando, com a hospitalidade generosa de quem sabe que tem muito a ensinar pelo seu exemplo de vida. Poucas vezes na vida testemunhei gentileza tão desinteressada. Não importava se fôssemos comprar algo ou não, ou se a arte de um me comovesse mais do que a de outro. O que importava ali era que fossem reconhecidos pelo seu trabalho e pela sua postura diante da vida.

Um pensamento me invadiu durante a visita: de que tudo o que me aproxima do humano em mim, me coloca mais perto de encontrar um lar autêntico. Na cidade grande não há hospitalidade como vista ali, onde a vila é lar de todos. Entrei nas casas acanhado, mas meus anfitriões me diziam felizes para relaxar. Essas pessoas gentis em verdade nos convidam a encontrar dentro de nós mesmos as respostas para nossas aflições. Ver a riqueza do trabalho desses artistas e a sua satisfação mostrando sua produção me fez pensar como hoje viver numa grande metrópole pode engolir nossa espontaneidade e dificultar uma relação sadia com o nosso fazer. Ver seres humanos vivendo mais próximos do humano neles me fez pensar que há que se resgatar essa qualidade visceral com urgência.

Enxergar ali a possibilidade de uma vida mais simples e calcada no encontro com a própria autenticidade pode parecer discurso romântico sobre a promessa de um refúgio idílico distante dos sofrimentos e das privações – importante lembrar que a miséria ali é profunda e esses artistas merecem maior reconhecimento, e que não pretendo de forma alguma fazer aqui o elogio da pobreza. Mas entender essa parte fundamental da existência recuperada ali pode nos ajudar a pensar caminhos para nos reconectarmos com nossos próprios propósitos.

Oficina de Vavan. Foto: Diego Cerviño Lopez

Talvez seja trazendo um pouco da Ilha do Ferro para casa, assim como valorizando outras tantas riquezas de outros tantos lugares tão criativos como esse, e tão mais pungentes do que qualquer coisa que possamos produzir enquanto mantivermos oculto o artista que cada um de nós mantém escondido atrás de nossos personagens sociais, que consigamos recuperar essa centelha criativa. Entender a própria construção material do lar como uma meticulosa costura de retalhos – de memórias e experiências – pode nos fazer lembrar dessa capacidade fundamental humana de criar a partir dos elementos que temos disponíveis. Os artistas da Ilha do Ferro se relacionam com a madeira como ponto de partida e a partir dela constroem seus sonhos. Já nós da cidade podemos começar sonhando nossos lares, num fazer artístico de edição. ‘Colando’ a arte daqueles que nos impactam podemos construir lares autorais que nos representem. E, quem sabe um dia, encontremos formas mais concretas de nos expressarmos artisticamente, nos relacionando com o fazer e os símbolos com mais simplicidade e originalidade.

Nota: Já faz anos que, instigado pelo olhar curioso e certeiro da querida Zizi Carderari para coisas belas, tenho vontade de conhecer a Ilha do Ferro e sua arte. Minha gratidão a ela e à querida Evelyn Muller por nos conectarem com essa riqueza encravada à beira do São Francisco.

Oficina de Aberaldo, onde fomos recepcionados por ele, sua filha Mariana e sua esposa Gilvânia, que nos cozinhou um delicioso almoço. Foto: Diego Cervino Lopez