Quando vejo uma casa sem essência, logo penso num não lugar. O termo, cunhado pelo antropólogo urbano Marc Augé e aqui explicado de forma bem rasteira, denomina espaços que de tão genéricos e desprovidos de identidade, poderiam estar em qualquer parte. Exemplos desses não lugares são espaços de passagem, como aeroportos ou shopping-centers. O termo não faz referência aos ambientes residenciais, mas observar como as casas estão se tornando cada vez mais homogêneas e sem graça me leva a pensar que existem muitas casas não lugares por aí. E, pasmem vocês, muitos se sentem aprisionados pelo desejo de possuir um não lugar para chamar de seu.

Uma casa que viva de sua própria aparência, sem que essa encontre qualquer conexão com a realidade ou a história dos que ali residem, dificilmente será reflexo de um lar verdadeiro. Assim como os aeroportos são muito parecidos em quase todo o mundo, independente do país em que estejam, muitas casas também são reproduções fajutas umas das outras. Fiéis exemplares da última moda e dos estilos hegemônicos, essas casas em nada representam a personalidade de seus proprietários. Por se parecerem com casa de qualquer um, acabam se tornando casa de ninguém.

A casa asséptica como um saguão de aeroporto. Foto: Pixabay

Mas por que tantos buscam essa qualidade de identificação no grupo ao invés de busca-la em si próprios? A experiência adolescente talvez nos dê uma pista para entender esse mecanismo. Quem nunca usou um modelo de roupa, mesmo ele ficando péssimo no seu corpo, por que era considerado descolado? Ou um corte de cabelo da moda que, na sua cabeça, mais parecia uma aberração? Os desrespeitos que somos capazes de nos infligir para cabermos na coletividade e fazermos parte de um grupo nessa idade são impressionantes. Em troca da fidelidade ao grupo, recebe-se a proteção de seus limites. Se todos usam a mesma roupa ou o mesmo corte de cabelos, não haverá dentro dos muros desse grupo quem possa ser criticado. Os que julgarem aquilo ridículo serão excluídos ou deste nunca terão feito parte. E assim, conforme qualidades vão sendo destacadas e reforçadas em diferentes círculos, os guetos nascem. Esses se defendem de possíveis ataques externos na coesão de entendimento do que todos ali dentro consideram ser bom e justo. Quando se trata de pensar a casa, parece que esse gueto ficou enorme, e essa fase adolescente nunca passou.

Fazer da nossa casa uma senha de acesso a um determinado grupo não é nunca uma boa escolha. Podemos até ser incluídos nesse seleto agrupamento de pessoas, mas corremos o risco de estarmos nos excluindo do nosso próprio mundo. Embora o sentido de pertencimento seja fundamental na existência, para pertencermos pressupõe-se, antes de tudo, sermos.

O curioso é que, ao qualificar de forma quase caricata essa casa sem alma, pode soar como se essa busca incessante e infrutífera só aconteça distante de nós. Entendo que todos compartilhamos, em maior ou menor grau, alguns desejos nocivos resultantes do nosso julgamento das aparências. Eles nos fazem acreditar que determinados estímulos que imaginamos trazerem a felicidade ao resto da humanidade também nos farão felizes. Como se o ‘resto da humanidade’ fosse um grupo coeso e único, onde todos os demais fossem iguais e, apenas eu, diferente – e, portanto, um excluído. Pensamentos totalizantes como esse sempre polarizam e segregam. Tanto os outros quanto nós mesmos, tanto os incluídos quanto os excluídos. Nessa brincadeira não há ganhadores.

Sem entrar em contato com nossa verdadeira essência, investigar quem somos, de onde viemos e para onde queremos ir, jamais descobriremos o que realmente nos faz bem. Enquanto terceirizarmos o poder que temos de atribuir nossos próprios valores ao mito do consumo e da resposta pronta, a relação possível com o ambiente em que vivemos será sempre uma não-relação.