A bancada da cozinha depois da aceitação de que casa viva é lar com ‘bagunça’. foto: Gustavo Calazans

Na bancada da cozinha não há nada que esteja fora do lugar. Mais do que isso, nada aparece que não esteja lá intencionalmente. O mesmo acontece nos outros cômodos da casa, onde tudo o que vemos é belo. Os móveis parecem seguir uma dança cuidadosa, as linhas sinuosas de uma poltrona se ajustam às curvas da mesa de centro, enquanto a leveza da estante se contrapõe à concretude do pesado banco ancorado em sua frente. O diálogo entre as coisas sugere desde um pas de deux’s harmônico até choques de antagonismo profundo, embora sempre tendo como premissa máxima a expressividade. A beleza é a regente.

Quantas casas conhecemos que encontram na descrição acima uma verdade? Eu já vi muitas. Inclusive muitas que eu mesmo ajudei a construir – e ainda ajudo. Vou além: minha própria casa pode perfeitamente ser vista dessa forma em muitos aspectos por alguns que talvez se incomodem com meus padrões estéticos e minha necessidade de viver em um lugar regulado pela harmonia visual. E muitas vezes esses são lugares onde as necessidades práticas e a funcionalidade ficam relegadas ao segundo plano. Ou mais do que isso, onde o pensamento espacial fica intrincado e a tentativa de controle sobre a ordem das coisas impera.

Desde a minha última reforma que não tenho uma lixeira pequena sobre a bancada minha da cozinha. A verdade é que a lixeira antiga se danificou durante a obra. Lembro de um dia tê-la visto sendo usada para preparar uma massa. Não se tratava de um bolo, mas de rejunte para revestimento cerâmico. Lá e foi a minha lixeira. Mas a verdade é que uma vez pronta a obra, nunca me mobilizei para comprar uma nova lixeira. Apesar da falta gigantesca que ela me fazia, não encontrava forças para descer e andar menos de 200 metros até a loja mais próxima. Por uma razão que as colocações acima podem perfeitamente interpretar, eu não queria lixo aparente. Quase como se quisesse esquecer que os resíduos fazem parte da vida. E mais uma vez a beleza ganhou a luta com a praticidade.

Essa luta é cotidiana. Todos os dias tento aceitar o que meus olhos as vezes veem como imperfeições, mas que são de fato retratos da vida em sua forma mais pura. Pulsante e viva. É lindo quando encontro sapatos jogados sobre o tapete da sala e sinto uma alegria por saber que eles foram tirados para trazer conforto e lá deixados por que estar o tempo todo alerta cansa. Não conseguir relaxar é um mal que acomete muitos de nós que padecemos dessa neurose da vida muito organizada.

O mais curioso é que eu não sou uma pessoa organizada. Minha natureza é rebelde, sou multi-tarefa e nas muitas coisas que faço ao mesmo tempo, sei que vou deixando fios soltos pelo caminho. Também sei que vou passando de novo por todas as atividades que estão sendo feitas ao mesmo tempo como se estivesse olhando o mundo em camadas sobrepostas, o retorno para encaixar alguma coisa aqui, levar outra pra lá, limpar uma outra ainda acolá. E isso vira quase que uma gincana. Desafio cotidiano. Por outro lado, minhas gavetas são buracos negros, meus armários sempre têm coisas empilhadas, meus documentos todos juntos, nada separado. Me vingo dessa patologia querendo mesmo é que tudo seja mais livre – e meus papéis o são, definitivamente.

Esconder o que consideramos feio ou imperfeito é uma saída usual, mas sabemos que a fórmula não é boa. Um dia a casa cai, as portas dos ‘armários escuros’ se rompem e teremos que lidar com o que guardamos sem distinção ou discernimento de uma só vez. Na vida como na casa, brincar desse esconde-esconde só é legal na infância. E sei que não é fácil encarar tudo de frente, aceitar a concretude em tudo e de tudo que existe. Mas é o único caminho nesse planeta. Inclusive relembrando sempre da nossa responsabilidade em consumir menos, acumular menos, nos esconder menos a verdade. Substituir essa ilusão escondida em nós pelo encontro com o possível.