Como é bom ter um avô cronista.

 

(Morguefile)

Considero Rubem Braga meu avô. Acho que o adotei porque não conheci os meus – nem o materno, nem o paterno. Morreram cedo. Um dormindo placidamente em sua rede de tucum, no Piauí; o outro, poucos depois de fazer 50 anos, no Maranhão.

Mas o Rubem, não. Esse meu terceiro avô, mesmo falecido em 1990, continua vivo. Pelo menos, cada vez que abro Ai de ti, Copacabana! Um pé de milho, Recado de primavera, A Borboleta amarela ou O homem rouco, ele conversa comigo. E como proseia o velho!

Dizem que a biografia de um poeta são seus poemas. Vô Braga não é diferente. Naquelas folhas e folhas, de suas mais de 15 mil crônicas, pulsa tanto viço que não sinto que ele, como Nestor e Luís, meus antepassados de verdade, se foi.

É tão bom ter um avô cronista. Basta você, caso decida seguir o mesmo ofício, nunca se comparar a ele. Porque ficaria complicado achar seu próprio caminho, traria insegurança ou até mesmo o faria desistir da vocação pela ironia, a lírica e a concisão. E é bom que se diga: por melhor que o neto seja, vai ser impraticável criar textos como Viúva na praia; Sizenando, a vida é triste; A empregada do Dr. Heitor – só para ficar em três de uma infinita coleção de pequenas obras-primas.

E o que dizer das frases e pensamentos?

“Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar.”

“Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.”

Li tantos textos do meu parente postiço, mas nunca soube quais eram suas influências. Há pouco tempo tive acesso a alguns livros da especialista em Estudos Literários e Culturais, a mestra e doutora em Literatura Ana Karla Dubiela. Em seu A Traição das Elegantes pelos Pobres Homens Ricos encontrei o que buscava:

“Em busca da literatura desajetivada, da clareza e das ideias limpas, o cronista prefere ler Dalton Trevisan, o suíço Georges Simenon, mestre do romance policial, ou a prosa irrequieta de Brasil Gerson (autor de Histórias das ruas do Rio de Janeiro, 1955) às obras de muitos autores consagrados. O fascínio pela simplicidade volta à tona quando se diz discípulo do estilo defendido por Winston Churchill:

 “De um modo geral, as palavras curtas são as melhores, e as palavras velhas, quando curtas, são as melhores de todas”.

 Do seu contemporâneo Manuel Bandeira, de quem é admirador (desde os 15 anos) e amigo, recebeu influência importante. Concorda com a opinião do poeta quando ele diz que o lirismo poético é feito de ‘pequenos nadas’. “

 Ah, como é bom ter um avô cronista…