turista

 

Há poucas certezas no mundo presente. Duas de que me lembro agora é que não se rasga dinheiro e que viajar é a segunda melhor coisa que pode-se fazer na existência.

A Terra de 2015 parece estar moldada a promover o turismo. Aeroportos mastodônticos, hotéis às mancheias, promoções de passagens a preço de banana e blogs explicando em detalhes cirúrgicos a etiqueta da peregrinação.

Não sou um extraterrestre vindo de um universo paralelo em passagem pelo planeta azul. Evidentemente, como terráqueo, também sou impactado pelas tendências atuais.
Mas, talvez devido à andropausa, me encheu completamente o saco viajar.  E olha que já fui um nômade  – no pessoal e no corporativo – de dar inveja ao Gulliver.
Só que agora é só eu botar os pés fora casa e já começo a me ferrar. Se for pro Exterior então, a canseira já começa no passaporte, passa pelo visto e acaba nos sacais check-in e check-out. Sem falar no tanto que se é maltratado, aviltado, enganado, surrupiado (ou, com um pouco de azar, explodido) quando se resolve sair do quintal.
Antes rodava minha malinha por aí pra comprar discos e livros que não existiam no Brasil. Dei mais lucro pra Virgin Megastore que o BNDES pras estatais venezuelanas e cubanas. Mas agora vou lá pra ponte que o partiu adquirir cultura pra quê, se posso fazer isso de graça do meu smartphone?
Também viajava pra fotografar. Quanto mais exótico o destino melhor pro meu portfólio. Só que acabei percebendo que seria um melhor daguerreotipista se tentasse retirar imagens inusitadas do meu quarteirão, da minha ruela e não de uma floresta subtropical inundada de água salgada da Costa do Marfim. Isso qualquer instagramer faz.
Viajar pra comer coisas incomuns? Ora, nunca ouviram falar em food-truck? Só no meu bairro tem uns 19 diferentes vendendo acepipes representativos até da culinária de Mianmar.
Costumava ainda pegar voos pra visitar parentes distantes. Agora converso com eles todos os dias, via skype ou facetime. Em determinados grupos familiares no whatsapp até já me dei “quit” porque não conseguia mais fazer nada de tanto que meu celular vibrava com mensagens de amor e carinho.
Então pra que ir até São Raimundo do Pentelho Adentro se São Raimundo do Pentelho Adentro está literalmente dentro da minha sala?
Por tudo isso concluo que viajar, nos moldes de hoje, é um ato coletivo de masoquismo. Ficar em casa ouvindo música, visitar um parque a não mais de um quilômetro do domicílio, ir a um museu nas cercanias de onde vive-se. Estes, sim, podem ser programas turísticos benfazejos.
Ontem curiosamente me ligaram do cartão de crédito. A moça do telemarketing me avisou que tenho milhas suficientes pra ir a Galápagos quatro vezes e ainda pedir ao piloto do avião pra ir voando até lá em looping.
Alguma sugestão do que fazer com elas? Viajar vocês já sabem que é para os fracos.