Uma playlist com o melhor da música paulista dos anos 1980.

(Foto: Walter Moraes)

No final de 1979, eu era estudante de Jornalismo. Apesar de escrever poesia desde adolescente, não imaginava que, em breve, me tornaria letrista de um dos mais cáusticos e debochados grupos já paridos no Brasil: o Língua de Trapo.

Dali a alguns meses várias de minhas canções faziam parte do repertório da banda, e ressoavam pelo Teatro Lira Paulistana. Estávamos na ribalta ao lado de Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque, Arrigo Barnabé. E haviam nos batizado de Vanguarda Paulista.

A imagem daquela pequena porta na Teodoro Sampaio, número 1091, em frente à praça Benedito Calixto, sempre vai e volta à minha memória. Como dizia João Guimarães Rosa, “o que lembro, tenho”. Assim, sempre terei comigo o lapso de tempo em que pude testemunhar algo realmente novo despontando na cultura paulista e brasileira.

Na minha modesta análise, o movimento – se é que podemos chamá-lo assim – teve início em meados dos anos 1970. Veio com os discos “Revolver” e “Ou não”, de Walter Franco. Ali já estavam as sementes do processo, faltava agora só afofar, aguar e adubar a terra.

A vontade de fazer algo naquela estética me apareceu um pouco mais tarde. Foi ao assistir, na estreia do Lira como casa de espetáculos, um musical chamado “É Fogo, Paulista”. Tinha sido escrito por Sérvulo Augusto, Jean e Paulo Garfunkel, Jaime Pratinha e José Rubens Chachá. O humor, a ironia, as letras, somados à atmosfera mezzo Rive Gauche, mezzo Cavern Club do ambiente, contribuiu para meu deslumbramento.

A partir daquele outubro de 1979 nada seria como antes.

Em função disso tudo, fui convidado pela A Capivara Cultural para montar a playlist “Vanguarda Paulista 80’s”. Ela merece ser ouvida. Ainda mais nesses tempos de retaguarda brasileira.