A história do meu amigo Cid, o mais brilhante da faculdade.

 

(Gordon Johnson – Pixabay)

Meu amigo Cid foi, de longe, o mais brilhante da faculdade. Nós apostávamos que ele daria algo de muito importante na vida. Onde ele mexia brotava algo original. Cid não era excelente apenas em duas ou três matérias. Mandava bem em tudo: dos temas abstratos aos mais exatos e lógicos – podia-se dizer que era um homem renascentista.

Depois que nos formamos soube que ele escrevera um celebrado romance que virou “cult.” Recebeu vários prêmios importantes, o que o levou a conquistar uma bolsa numa universidade alemã. Os germânicos logo perceberam o que tinham nas mãos e o convidaram para ser professor titular na cadeira de Estética.

Durante o período europeu, de quase nove anos, Cid dedicou-se a produzir novos livros com grande sucesso de crítica.

Mas nós, que o conhecemos tão bem, sabíamos que sua ambição não permitiria que ele fosse apenas querido por especialistas, era preciso influenciar mais, muito mais.

Logo ele começaria a dar palestras mundo afora. Comentava seus ensaios, que misturavam de Balzac à engenharia de produção, e cobrava 20 mil euros por participação.

Um desses textos acabou virando o filme Schopenhauer e o baldrame na construção civil que fez relativo sucesso junto a plateias do festival de realizadores independentes de Cannes.

O que Cid edificara, com pouco mais de 30 anos, já seria para deixar qualquer um vaidoso. Mas, para o meu notável amigo, aquilo obviamente estava muito aquém de suas expectativas.

De modo a melhor se projetar, tentou as Artes Plásticas. Em sua primeira intervenção artística colou 117.600 figurinhas da Galinha Pintadinha na fachada da Casa da Dinda, em Brasília, e virou “talk of the town.”

Contudo, era preciso influenciar mais, muito mais.

Cid decidiu entrar na ascendente área musical. Escreveu as letras, melodias e arranjos de 18 canções que chamou de “pragmático-provocativas”. Entre elas, o coral da Associação Cristã de Moços entoando “Surra de Bunda”, das Tequileiras do Funk. E ainda o padre sertanejo Alessandro Campos cantando “Blowin’ in the Wind”, ao lado do ex-senador Suplicy.

O clipe do cd atingiu 500 mil views em apenas uma tarde. Mas para Cid a marca estava muito distante do que ele planejara.

Foi então que resolveu usar seu genial lado lógico e criou, muito rapidamente, um dispositivo que alterava as visualizações dos vídeos no Youtube. Fez um teste com o clipe do padre Alessandro e este passou de 570 mil para 8.300.000 views. Depois promoveu um segundo teste com “Surra de Bunda”, pelo coral da ACM, e bateu 17 milhões de visualizações.

Hoje li que o amigo Cid foi preso. Mas, se tudo der certo, ao sair do presídio de Tremembé, já está com uma temporada de palestras fechada nos Estados Unidos para explicar sua invenção que altera os views em redes sociais. Sem falar de seu talk-show na BBC, sua biografia escrita por Ruy Castro e o documentário baseado em sua vida dirigido por Errol Morris.

Enfim, uma vida de sucesso.