Foi Georges Simenon quem deu o conselho aos candidatos a escritor: “até os 25 anos leia tudo que lhe cair nas mãos, depois acrescente à leitura muitas viagens, o conhecimento de pessoas, para, aos 40, parar com tudo e começar a redigir sua obra”.

Segui fielmente a esse preceito.

Tanto é que hoje, um autêntico cinquentão, estou em férias e não marquei nenhuma viagem mais distante do que 300 quilômetros de minha residência.

Apesar de saber que o meu jeito é o oposto ao “zeitgeist”, prefiro digerir as viagens que fiz, os cidadãos que conheci, os livros que li, transformando-os em narrativas. Como esta, aliás, que vou lhes contar.

Em 1987 fui sozinho para os Estados Unidos pela primeira vez. Era o mais jovem cronista do recém-nascido Caderno 2, do Estadão, e misturei uma viagem de turismo à produção de um texto de humor tendo a Big Apple como pano de fundo. Influência de um de meus heróis, Fernando Sabino, e seu definitivo livro sobre Nova Iorque, Cidade Vazia.

O texto foi publicado e chamava-se “Em busca de Michael”. Um narrador que ia para NYC tentava entrevistar Michael Jackson, não conseguia, e acabava consolando-se visitando a loja dos Menudos em Manhattan.

Fiquei uns dias por lá e, como redigi logo a crônica, decidi me embrenhar por aquela selva de pedra.

No dia seguinte fui assistir a um show do trompetista Freddie Hubbard, no Blue Note, em companhia de amigos. Ao sair na noite gelada – mesmo tendo ouvido deles que era desaconselhável voltar de metrô naquele horário para o apartamento em que me hospedara – dei de ombros e me arrisquei pelo tubo.

Quando a composição estacionou na soturna estação me enfiei nela, assustado. No primeiro vagão não deu para permanecer, os bancos estavam todos vomitados. Rapidamente acorri a outro carro, que não tinha dejetos nos assentos, mas cacos de garrafas. Além disso, dois sujeitos bem mal encarados, um em cada extremidade. Um deles tirou, não sei de onde, uma bola de basquete. E teve início uma troca de passes à la NBA.

Detalhe: comigo no meio do corredor levando boladas nas costas, no cocoruto e na bunda.

Fiquei atordoado e perdi a noção de tempo e espaço. Quando dei por mim estava no Harlem. Decidi pular fora e voltar a pé até a East Fifty-Second Street.

O vento soprava gélido e, durante o percurso, fui assediado por 9 entre 10 mendigos drogados da ilha de Peter Stuveysant.

Depois de caminhar por infindáveis horas cheguei ao prédio. Mas esquecera a chave. Cochilei na frente do pórtico e, quando dei por mim, o dia já estava claro. Do jeito que estava, meio amarrotado e ressacado, fui até a cafeteria mais próxima. Pedi café bem forte e donuts.

Quando fui me acostumando à penumbra do ambiente vi a octogenária. Usava um gorro de lã e óculos de armação retangular de lentes amarronzadas. Tomava chá com torradas, geleia e tinha modos delicados. E, humm, aqueles olhos lembravam-me os de alguém. Fui mirando-a mais detidamente, puxando pela memória. Ao terminar de comer passei na frente de sua mesa. Ela interrompeu o movimento da mão que levava a xícara à boca e me deu um brevíssimo sorriso.

Na calçada lembrei-me de recentes fotos de paparazzi na imprensa e não tive mais dúvida: a octogenária era Greta Garbo.

27 anos depois, de férias, no sofá de casa, todas essas imagens visitaram-me. Sem dúvida, uma ótima forma de se fazer turismo. Sem contar que os “check-in” andam cada vez mais indecentes.