laert (1)

“Que Monty Python, que nada. O Língua de Trapo é que é o maior grupo de humor do mundo! “

(Entreouvido na plateia do Theatro Municipal de São Paulo, dia 20.6.15,  na Virada Cultural)

Acabado o show tento sair da boca do palco de onde assistira a tudo como compositor-convidado. Noto que há um corpo colado às minhas costas.  É um senhor baixo, muito gordo, de pele branca feito vela de igreja. Fazemos os dois uma espécie de coreografia ridícula. Apesar da gordura, o sujeito acompanha, com precisão e rapidez, todos os meus movimentos. Visivelmente está me seguindo. Ao chegar na porta do elevador resolvo finalmente encará-lo. Ele fica corado, começa a tremer.

–  Desculpa, eu…olha, eu só queria…

–  Queria o quê, meu chapa? Desembucha!

Ele se curva quase até o chão e me coloca nas mãos um exemplar úmido e manuseado do meu livro Clássicos de Mim Mesmo.

– … primeiramente queria um autógrafo teu. E depois te pedir pra, por favor, me dar a honra de uma entrevista no meu programa.

Perco a paciência. Como colocaram o cara dentro do espaço reservado para os artistas?

– Que programa?

– Programa do Jô, conhece?

O elevador chega.  Pulo para dentro e aperto o 3. Enquanto a porta vai se fechando, o senhor gordo se desespera.

– Pô, não faz isso! Eu te coloco no primeiro bloco, faço um stand-up abrindo só com piadas tuas! Casteloooo!

O elevador faz uma parada no segundo piso. Entram Porchat e Duvivier.

– Mestre! – afirmam os dois em uníssono. Que letras, que esquetes, que show!

Faço que não os conheço, puxo o celular do bolso. Simulo que recebo uma ligação importante, mesmo sabendo que não há sinal dentro daquela maldita caixa de metal.

Chegamos ao andar onde fica o camarim do Língua de Trapo. Já na porta sou abraçado por Rafinha Bastos.

– Não podia deixar de assistir o espetáculo da tua banda, guri. E, bah, ficou ainda mais explosivo no Municipal! Olha, eu trouxe meu empresário, conheces ele? Trabalha pro Caetano, Bituca, Djavan, Gil. Se tu tiver tempo já lemos agora a minuta aqui. É uma proposta pra ti fazer a coordenação de textos de humor da emissora. Tu toparias?

Consigo me desvencilhar do amplexo dele, solto o envelope com o contrato no chão e me lanço para dentro do camarim. Nosso baixista está batendo um papo com Cláudio Paiva, do Casseta & Planeta. Ao me ver ele brinca:

– Dá uma chance pro Rafinha. Tá começando o garoto…

Paulo e Chico Caruso estão tirando um som ao violão. Ao lado deles entrevejo Marcelo Adnet. Tento fazer com que meus olhos não cruzem os dele, mas é inevitável. Ele aperta o passo em minha direção. Espalhafatoso do jeito que é logicamente já vem gritando:

– Todos ajoelhados reverenciando o Professor!!!

Os presentes vêm todos em louca carreira e fazem uma genuflexão à minha frente. O senhor gordo que estava lá embaixo no palco tenta entrar no bolo e tromba espetacularmente com Danilo Gentili. Os dois começam a bater boca; aproveito a confusão para me refugiar no banheiro.

Entro correndo e tranco a porta. Vou até o urinol. De repente ouço uma voz mansa a meu lado.

– Poderias dar uma opinião num livro que vou lançar no fim do ano, tchê?

É o Verissimo.

***

[P.S 1: crônica dedicada obviamente ao Ivan Lessa, in memoriam]

[P.S 2: foto de Ricardo Biserra]