Afinal, uma excelente tradução brasileira de François Rabelais

 

Gustave Doré (1832-1883)

Fui civilizado à base de um livro chamado “Tudo o que você precisa ler sem ser um rato de biblioteca”, de Luiz Carlos Lisboa.

Nessa obra de referência, o crítico e jornalista resume e comenta 250 livros (na edição que li), classificados em quatro grupos: Romance e Conto; Teatro; Poesia, e Ensaio, Memórias, Crítica e História. Em cada grupo, as obras são indicadas na ordem cronológica e comentadas de modo conciso.

Foi nesse livrinho que, nos tempos da faculdade, ouvi falar em Laurence Sterne, Beckett, Grombowicz, Pirandello, Jack London e uma pá de escritores de primeiríssima água.

Numa das minhas consultas ao oráculo, dei com François Rabelais (1483?-1553) e seu Gargântua e Pantagruel. Nunca tinha batido os olhos naquele literato e em sua obra de um humor mezzo erudito, mezzo devasso.

Começava ali minha peregrinação para tentar absorver Gargântua e Pantagruel, de preferência em português. Passei a buscá-lo nos sebos – de forma presencial, já que nos anos 1980 ainda não existia Estante Virtual.

Visitei quase todas as livrarias de usados do centro de São Paulo, algumas no Rio de Janeiro, outras tantas em Florianópolis. Até nos alfarrabistas portugueses do Chiado fui atrás do velho médico-monge-escriba e nada. As edições que encontrava não me satisfaziam. Ou não traziam as aventuras completas do gigantes rabelaisianos, ou a tradução não contemplava o baixo calão do autor francês.

Foram décadas de desilusão literária. Até que agora, afinal, a Editora 34 lançou Pantagruel e Gargântua (Obras completas de Rabelais 1), com tradução primorosa (mais apresentação e notas) de Guilherme Gontijo Flores.

Sem esse lançamento ficaríamos privados das palavras de um dos maiores escritores de todos os tempos.

Da vida de Rabelais sabemos até hoje poucas coisas. Apesar de ser conhecido quase só por suas obras ficcionais em torno dos hilários Gargântua e Pantagruel temos dele ainda uma obra curiosíssima entre cartas, prognosticações e almanaques de época, prefácios de edições gregas e latinas, poemas em francês, latim e grego, e até uma súplica em latim ao papa.

Rabelais veio de uma burguesia rural e chegou até o alto escalão da nobreza francesa: teve primeiro uma formação em direito, foi em seguida monge franciscano, depois beneditino, curtiu uma apostasia, teve três filhos, chegou a ser médico e secretário da família Du Bellay, atuou em embaixadas diplomáticas e foi talvez inclusive espião internacional em serviço da coroa francesa. Tudo isso enquanto traduzia do grego e usava outras línguas vivas e mortas.

O mestre de Chinon uniu o mais alto conhecimento do século XVI a um riso dos mais despudorados que até hoje nos espanta.

Para mim, finalmente recompensado em minha busca, só digo mais uma coisa: é o livro do ano.