Como agir no passamento de seu peixinho dourado de estimação?

(Foto: Carlos Castelo)

Rosiclair e Iedo sentam-se para o café da manhã. A esposa faz uma expressão facial que significa má notícia. Iedo olha para trás e vê a filha de cinco anos brincando de slime.

– The fish is dead – sussurra a mulher, na língua de Shakespeare – para que Nini não saiba do que estão falando.

Iedo pousa a xícara de café com leite na mesa e vai até o aquário. Lá está Nemésio, o peixinho dourado, mais duro que rapadura de Pastos Bons.

– E agora? – diz antes de dar um gole no café com leite já morno.

Rosiclair ajeita o cabelo e diz:

– Eu sempre fui contra esse negócio de…de fish aqui. Foi você que, naquele sábado, brigou comigo e foi com ela no petshop. Não sei se foi por provocação ou o quê, mas chegaram aqui com esse…aí do aquário. Já temos a gata que, tudo bem, fui eu que comprei pra ela. Acontece que bichano não dá trabalho. Coloca lá a ração e esquece, nem banho toma, usa a língua. Agora o…esse aí do aquário…

Iedo deu um tossidinha.

– Não foi provocação. Fomos lá justamente pra comprar a ração da Tammy. A Nini viu o…

– Fish! Fala fish!

– …viu o fish e quis levar, você sabe como ela é quando quer uma coisa.

Rosiclair vai até a porta da cozinha para ter certeza que Nini não está pescando nada da conversa Volta e faz uma consideração:

– Bom, agora ele foi-se. O que você sugere?

– Esses bichos são todos iguais. Vou rapidinho ao petshop, compro outro da mesma cor e ela nem vai notar que teve um óbito em casa.

Rosiclair levanta a voz:

– Não, senhor, isso nunca. Mentir? Passei os últimos muitos anos ensinando, catequizando, enchendo o saco dessa menina: Nilmara Sílvia, mentir é feio. Mentir faz a mão secar. E agora vem o pai, pega o fish dead, joga na privada, dá descarga, bota outro da mesma cor no lugar e fim de papo? Oi?!!

– Maravilha – diz Iedo se espreguiçando – por mim, tudo bem contar. Se a ideia for traumatizar a menina, é claro. A gente sabe da paixão dela por esse…vai e, de supetão, mete na cara dela que o… que ele não está mais aqui.

– Ai, Iedo, como é difícil conversar com você. Parece que tem prazer em torturar os outros. Eu lá quero traumatizar a minha filha? É você quem quer me machucar com essa ironia. Sempre foi assim, sabe? Só escuta a sua mãe, que me odeia. Fica me fazendo sofrer para ganhar pontos com a dona Cleusa.

– Podemos focar na…no passamento do…?

– Fish!

– É, do f-i-s-h.

– Ixe! Tá vendo? Agora foge da discussão. É sempre assim: fica em desvantagem, cai fora.

– Só não quero que a Nini sofra com…

Aí Nini entra na cozinha. Rosiclair e Iedo calam-se na hora. A menina pega a ração do peixinho dourado, abre a tampa e, quando vai despejar na água, nota o corpinho sem vida, boiando. Ela olha para Iedo e diz:

– Ih, pai, o Nemésio morreu! Vamos ao petshop comprar outro? Só que, dessa vez, eu quero um peixe beta vermelho.

Crônica por Quilo no Facebook