O casamento estava no bico do corvo. Nelly e Joel tentaram então a última cartada:

fazer a viagem dos sonhos adiada desde sempre.

Nelly pensou no Taiti. Mas Joel a convenceu de que os Himalaias

contemplavam todos os desejos do casal.

Se não conseguissem acertar os ponteiros ali, vendo a montanha Fish-Tail,

a quase 9 mil metros de altitude, não haveria mais

salvação para a lavoura que haviam plantado e colhido juntos.

Decisão tomada passaram a procurar as melhores opções

para chegar ao Teto do Mundo.

Não foi tão simples achar um roteiro razoável.

Nem toda agência de turismo se aventura a promover certas aventuras.

Mas Joel, muito empenhado em salvar seu núcleo da derrocada, acabou

descobrindo uma pequena empresa

que fazia o circuito clássico para os não-montanhistas.

Eram três noites subindo o vale do Annapurna e dois descendo,

na companhia de sherpas treinados no Nepal.

Quinze dias depois estavam na base do desfiladeiro,

iniciando a caminhada rumo à regeneração.

Nelly se maravilhava com qualquer coisa. Joel fotografava

o idílio e jogava no Instagram com grata satisfação.

E foram caminhando, caminhando. E nos dias seguintes subindo, subindo.

Tudo ao beijos, abraços e cafunés.

O último riso de Nelly aconteceu quando os primeiros flocos

de neve lhe caíram sobre as faces.

Apesar disso, Joel registrou prontamente

a expressão dúbia em sua câmera digital.

O cansaço físico começava a minar forças. E alguns sinais de desalento

apareciam em Nelly, conforme a altitude aumentava.

Foi assim quando o grupo chegou ao acampamento uma noite.

Enregelada, despenteada e descadeirada, Nelly

viu sobre a mesa tosca do jantar sardinha em lata

e couve flor cozida em água salgada.

Ao ser servida pelo gentil sherpa, abraçou-se ao prato e começou a chorar.

Meio bêbado de rocsy, a pinga de arroz dos Himalaias,

Joel fez uma sequência de fotos de Nelly com as sardinhas

ao molho grudadas no casaco. Achou que ela estava se divertindo.

Dormiram em tendas separadas.

De manhã, Nelly acordou com o corpo inteiro travado.

O líder do grupo sugeriu que ela ficasse na barraca, em repouso por um dia.

Os outros seguiriam montanha acima. No raiar do dia seguinte,

dois sherpas iriam escoltá-la bem devagar pelo caminhado nevado.

E então, durante o almoço, todos se encontrariam no topo.

Assim foi feito.

Dia seguinte, hora combinada, Joel estava ansiosíssimo.

Empunhou a câmera e ficou de pé na picada esperando a esposa chegar.

Arfava.

Nelly e dois sherpas apontaram ao longe na estrada. Eram três pontinhos negros

no meio da nevasca.

Joel berrou de onde estava, a mais de 500 metros da esposa.

– Amooooor? Como está se sentiiiindo?

– Que horas sããão, Joeeeeel?

Era Nelly, berrando, o que provocava um grande eco.

– Meia-diaaaaa, amooooor!

– Que horas eu sai daquele acampamentoooo, Joeeeel?

– Quatro horas da manhãããã, meu beeeem!

– São quantas horas andando no geeeeelo, Joeeeeel?

– Oitooooo horaaasssss, amoooor!

– Oito horaassss?

– Issoooo: oito horaasss!!

– Joeeel?

– Digaaaa, meu benzinhoooo!

– Joeeeeel!!!

– Fale, tô ouviiindo, queridaaaaaaa!!!

– Joeeel, vai à merdaaaaaaaaaaa!!!!!!