Com Antônio Maria.

(Arquivo do autor)

Aqui estou, no recesso do lar, olhando três fotografias de três documentos: RG, carteira de motorista e passaporte. Os papéis parecem conversar comigo.

E aí, meninão do Piauí, morando na São Paulo dos anos 1970? Curtindo rock progressivo, indo a shows de Rick Wakeman no estádio da Portuguesa. E metido a Henri Cartier Bresson do Sumarezinho, sempre empunhando uma Asahi Pentax SP-II. Todos esses apetrechos e singularidades se prestavam a somente uma coisa: chamar a atenção de duas ou três moçoilas do colégio Bandeirantes. As três que os outros 300 colegas desejavam. Daí a pose de galã da RKO na fotografia do Registro Geral. O cabelo comprido, cuidadosamente descuidado, monocelha, barba rala de recém-saído da adolescência. Era preciso criar um tipo, senão a concorrência atropelava. O grande desejo, no frigir dos ovos, era atingir a maioridade e conseguir veículo e habilitação, não era?

Canso de olhar para a idosa carteira de identidade e coloco a CNH diante dos olhos. É a primeira de muitas, ainda num formato que não existe mais.

E conseguiu os dois, não foi, jovem? Com 18 anos (e um dia) se inscreveu na Autoescola Guerra. Foi treinar baliza nas travessas da Heitor Penteado. Talvez tenha sido sua maior alegria ter passado no exame do Detran. Tanto que esqueceu o estimado casaco de general no banco de trás do chevettinho da Guerra. Agora, sim, era gente grande. Ao receber do pai as chaves do Fuscão preto, já adotara um bigode à Zappa. Novas playlists, novas aventuras, novos destinos. Porres, brincadeiras dançantes, Minister, Ana Maria. A Aninha com quem, tempos depois, se desentendeu por bobagem e nunca mais viu. Mas havia tantas outras Anas. Ana Sílvia, Ana Paula, Ana Teresa, Anabela. Todas a bordo do Fuscão, de rodas Scorro, ouvindo Joe’s Garage e fumando Carlton.

O passaporte, requerido para uma viagem a trabalho, traz uma foto atual. Os cabelos já encanecidos, olheiras, um papo herdado do pai e uma expressão semicansada.

–  Quantas viagens! Uma pessoa que sai de Kathmandu num dia e chega a Londres no outro, ou é comerciante de sedas, ou membro do ISIS. E esta então? Liechtenstein. Você deve ser parente dos príncipes Grimaldi. Um passaporte carimbadíssimo, sem dúvida. Américas, Caribe, Europa, Ásia. Um piauiense trota mundo. Qual será a próxima?

Empilho os três documentos e os disponho na pasta plástica azul. A vida tem sido uma grande jornada. Mesmo com tanto isolamento. Por isso, não me sai da cabeça aquele verso do Álvaro de Campos: “afinal, a melhor maneira de viajar é sentir”.

(Com Antônio Maria e sua crônica As três fotografias)