A diversidade de um gênero que nasceu no Brasil em 1852.

(Pixabay)

Comecei o sábado terminando algumas leituras. Não sei se poderia classificar os autores que apreciei de novos cronistas. No entanto, eles parecem praticar uma crônica nova. Para evitar dissensões, já adianto: os que examinei agora, não são os pais de um momento especial no interior do país Rubem Braga. Há muita gente potente cultuando o gênero (ainda falarei deles), apenas me fixei nos mencionados por aqui.

Em primeiro lugar degustei “Conheço duas formas de acabar com a vida que são tiro e queda”, de Arzírio Cardoso. A obra terminou entre as finalistas do Jabuti 2021. Em minha opinião deveria ter ficado com a cabeça, o casco, as patas, e o rabo do cágado. Arzírio trouxe à luz algo que contempla todas as melhores virtudes da crônica e apensou (o que não é nada simples) mais algumas. Fora o tradicional lirismo irônico, o escárnio poético, em seu caso específico, agregou um corpus que joga com a linguagem a espichando, quase até seu limite.

Ou, como expõe sobre “Conheço duas formas de acabar com a vida que são tiro e queda”, o colunista da Folha de São Paulo, Sérgio Rodrigues:

“Escritor que reflete antes de usar verbos reflexivos, Arzírio Cardoso sabe que, embora a ordem direta seja legal, a inversa ordem legal também é. Nessas crônicas agudas, o cara brinca tanto com a língua que, olha, só rindo…”

Crônicas agudas. É bem por aí o punctum de Arzírio Cardoso. Assim como também é o material de José Falero, em seu “Mas em que mundo tu vive?”. O autor gaúcho trabalhou em várias redes de supermercado como responsável por estocar as gôndolas, e depois de servente de pedreiro. Só leu um livro aos 20 anos por insistência da irmã (Besta-Fera, sobre lobisomens). Nos períodos de desemprego, passava dez horas diárias praticando a escrita. Quando trabalhava conciliava a literatura ao emprego.

Seu livro, publicado primeiramente na revista digital Parêntese, trata disso tudo. E, apesar de ser prosa, beira o slam:  as batalhas de poesia falada que se espalham pelas periferias do mundo como ferramenta de ação das comunidades. Em Falero, norma culta, rap, colher de pedreiro e caneta de escritor andam de mãos dadas.

Minha terceira leitura foi Histórias ao redor, de Flávio Carneiro, vencedor do Jabuti 2021. Aqui, já estamos falando de um texto mais memorialístico, canônico. A obra foi publicada pelo jornal O Popular, entre 2016 e 2018. Vão de lembranças de Carneiro sobre livros, o nascimento de suas filhas, reunião com escritores, até conversas espirituosas que ocorrem quando profissionais das letras se encontram.

Fazendo analogia com a MPB, a exemplo de Paulinho da Viola, Flávio Carneiro flerta com a tradição. Um legado que vem desde 1852, com Francisco Otaviano, e se mantém vivo e pulsante em seu livro até hoje.