Não sei se vão me acreditar. Mas obtive, de fonte segura, que ocorreu por esses dias uma reunião importantíssima na 37 Rue de la Bûcherie, mais precisamente no sebo mais tradicional de Paris, o Shakesperare & Company.

Fez todo sentido o conclave ocorrer no endereço mencionado. Essa loja de livros usados foi fundada por Silvia Beach em 1919 e teve entre seus frequentadores James Joyce, Ernest Hemingway e Ezra Pound.

Disseram-me que numa noite, no início de novembro, dentro de um exemplar carcomido, dos anos 1920, de “O Príncipe” aconteceu a seguinte conversa entre dezenas de Lepisma saccharina.

O presidente da “Sociedade pelo Desenvolvimento  das Traças” abriu os trabalhos pedindo que a sua colega chinesa traçasse um painel sobre o momento especial em que a espécie vive no mundo.

A traça chinesa postou-se entre o segundo e o terceiro parágrafo da página 27 do perfurado livro de Maquiavel e discursou com propriedade:

“Amigas e amigos, quem poderia imaginar que nós, capazes de botar de 1000 a 3500 ovos apenas numa existência, estaríamos tendo de nos reunir aqui, em caráter emergencial, para evitar o nosso fim?”

Ouviram-se palmas vindas de todos os capítulos, notas de rodapé e até das orelhas do livro.

A colega chinesa continuou em sua inflamada declaração.

“E por que isso?” – bradou ela, ficando ainda mais cinzenta.

“Por causa dos e-books!” – respondeu uma traça escocesa, que chegara de Glasgow aquele dia para o simpósio.

Mais aplausos e assobios, abafados pela pressão das folhas nas traças.

“Vamos dar um basta nessa patifaria dos destruidores do livro físico! Mostremos a eles quem manda! Morte ao Kindle, Kobo e Nook!!!!”

O exemplar de “O Príncipe” tremeu na estante da Shakespeare & Company. O presidente da Sodetraça bateu com o martelo na mesa e declarou pausa para deliberações.

Foram todas para o livro ao lado – “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”, de Deepak Chopra – e discutiram a melhor maneira de equacionar o problema.

Seis horas mais tarde, arrastando-se vagarosamente pela estante empoeirada do sebo, retornaram ao Machiavel e à reunião. O presidente voltou a bater o velho martelo e indagou:

“Chegaram numa decisão?”

Dessa vez foi a traça escocesa quem logo se manifestou:

“Sim, senhor presidente, vamos começar promovendo um ataque a Jeff Bezos e à sua Amazon!”

O presidente teve de soar a campainha para conter os ânimos.

“Mas como atacar Bezos, colega escocesa, se tudo lá é online?” – questionou a traça africana.

A chinesinha retomou a palavra:

“Aí é que está, nem tudo lá é digital.”

Houve um grande “ohhhhhh!” no ambiente de papel velho. A oriental prosseguiu:

“Nossa colega norte-americana, que vive no setor de obras físicas da Amazon, nos revelou que os livros-caixa de Bezos ainda são em papel. Vamos destruir a Contabilidades deles e fazer as ações irem pro saco em Wall Street!”

“À bancarrota!” – berraram.

“Faililite!” – repetiram as traças francesas ao ouvirem a tradução simultânea.

Combinaram de iniciar os atentados imediatamente. Mas, antes, merecidamente fizeram um coffee-break na sessão de autoajuda. Comeram um Paulo Coelho inteiro.