(Arte de Vinícius Zumpano)

Há os que torcem contorcendo-se. A ponto de, no pós-jogo, ficarem com torcicolo. Esses são do grupo dos apoiadores silenciosos. Uma categoria semitímida, mezzo pessimista, mezzo arredia – mas que nunca deixa de dar a maior força à sua equipe. Já cheguei a ver uma moça, do tipo calada, que, nos lances mais decisivos, vibrava. Quero dizer, ela tremia-se inteira, feito uma lavadora desregulada, toda vez que a Seleção fazia ou tomava um gol.

Os silenciosos, ciosos de seus atos, são minoria. A tendência do brasileiro é ser excessivo. Logo, somos um povo escandaloso. Tão escancarado que os tipos assim dividem-se em subcategorias.

Temos, por exemplo, o escandaloso gritão. Assistir um “match” ao lado dele é uma verdadeira tortura para os tímpanos. O desesperado urra, não apenas nos lances capitais, mas até nas reversões e durante o intervalo.

Ombreia-se ao gritão aquela senhora cinquentona, meio perua, que não entende absolutamente nada do ludopédio. E ainda faz comentários indesejáveis nos momentos mais indesejáveis. “Mas a Seleção é a de camisa amarela ou roxa?” E, sempre na sequência, solta aquela gargalhada altíssima e interminável que atrapalha a concentração dos outros angustiados torcedores.

Não podemos esquecer ainda nessa categoria, o vovô pornógrafo. Trata-se de um senhorzinho, beirando o octogenarismo, com uma meia dúzia de netinhos. E que, quando abunda-se defronte à uma TV que exibe uma partida do Brasil, costuma soltar o verbo. Na frente de quem for. É PQP, VTNC, C(*). P(*) e outras denominações ainda mais cabeludas. Para o aprendizado precoce dos infantes de sua família.

Finalizando a classificação há os que não torcem. Muitos julgam que são em número diminuto, mas não é verdade. São, de fato, uma imensa legião de brasileiros. E estão todos, a sete palmos da superfície, em nossos cemitérios.

E acredite: até eles tremeram no túmulo naquele jogo contra os belgas.

PERDEBILIDADE

Conheço alguns Tite. Podem não ser “o” Tite, mas operam exatamente como ele. Explico melhor a você, desencantado torcedor brasileiro. No mundo empresarial onde transito há décadas pululam dezenas de Tite.

São indivíduos que expressam-se muitíssimo bem, são donos de um imenso carisma e uma gigantesca capacidade de envolver audiências. No entretanto, na hora de passar o traço na conta, não entregam o resultado esperado.

Se Tite dirigisse grupos como dá entrevistas, o Brasil não seria apenas campeão mundial de futebol, mas talvez paladino galático.

Tite é um poeta com as palavras. Que outro técnico você conhece que usa o termo “aleatório” para explicar aos jornalistas o porquê de sua queda diante dos belgas?

A linguagem do técnico do escrete nacional é semelhante a dos coachs corporativos. Ele fala de “gestão de pessoas”, “performance”, mas também cai, como os palestrantes 171, nos detestáveis “treinabilidade” e quetais.

Quando vi um “speech” de Tite pela primeira vez lembrei-me dos inúmeros sabichões que ouço por salas de reunião de agências de publicidade. Com doçura na voz e precisão nos tons e maneiras, prometem mundos e fundos à consubstanciação de nossos projetos. Contudo, na maioria das vezes, o produto final é de uma considerável decepcionalidade.

Não foi diferente com a equipe orientada por Adenor Leonardo Bachi. A explicação das estratégias de “gamificação” antes dos prélios era colocada de um jeito tão convincente que, poderia-se crer que, além de trazer o Caneco, ainda ficaríamos com metade do território russo – inclusive as regiões produtoras de urânio e petróleo.

Ficam algumas lições para o futuro. Uma é que o data intelligence não é deus. Especialmente em situações onde o aleatório – como diz Adenor – tem grande influência. Outra é que deve-se falar menos, jogar com mais amor à camisa e menos titebilidade.