“Nunca estamos mais de acordo conosco mesmos do que quando somos inconsequentes.”

(Oscar Wilde)

(Alessandro Deco, Pixabay)

Crepúsculo de um 2020 recém-inaugurado. O sol ainda entrava pelas janelas do Palácio. O filho abriu a porta do gabinete do pai, como sempre fazia, sem ser anunciado. Dessa vez trazia com ele um convidado.

– Está aí a nossa ministra da Cultura, pai – disse ao presidente.

– Pablo Vittar!  – retrucou o mandatário – que maravilha ver você aqui…

Acomodaram-se nos almofadões indianos onde o presidente costumava meditar. Pablo permanecia em silêncio, apenas com um meio sorriso fixo nos lábios. O presidente continuou falando, animado:

– Vou te explicar o porquê da minha alegria…

O filho serviu uma taça de kombucha para a artista.

-…sabe, me caiu uma ficha. Preciso mudar radicalmente meu governo. E até eu mesmo, senão é impeachment na cabeça. Tá tudo errado.

– Sim, é verdade – disse Pablo saindo do seu mutismo.

O filho tomou a palavra:

– Então, Pablo, o nosso convite pra você assumir o ministério da Cultura tem a ver com isso. Assim como tem a ver com a nomeação do Wyllys pro Itamaraty, do Stédile pra Agricultura e do Greenwald pra Casa Civil.

– Sem falar no José Trajano na Comunicação Social – acrescentou o presidente.

A cantora se aprumou melhor na cadeira e perguntou:

– O que esperam de mim na Cultura?

Foi o filho quem explicou:

– O pai quer arejar as coisas. O Brasil ficou com um clima muito de caserna. Ambiente pesadão, todo mundo falando de golpe, golpe, golpe. A gente quer a volta do tempo da delicadeza.

O presidente então cantou um trecho da música de Pablo:

Ela joga bunda, ela é quem comanda

Tem carta na manga, dos passinhos ela manja

Chega de mironga com a sua ganga

Brota no rolê com as mina perigosa pampa

A reunião durou por mais algumas horas. Falou-se que a prioridade do governo, a partir daquela data, passaria por Educação, Saúde, Cultura, Meio Ambiente e incremento do emprego. Se aceitasse o convite, Pablo seria anunciada para a imprensa, grande aliada da administração  do presidente, dali a 48 horas. Tempo suficiente para que montasse seu gabinete com calma. Foi sugerido até o nome de Fernandona para a Secretaria-Geral do ministério.

Pablo saiu sem dizer nem sim, nem não. Mas já era alguma coisa.

O presidente começou a arrumar a mochila para ir embora. O filho fez um convite:

– Abriu um restaurante novo na Asa Norte, do pessoal LGBT. Gente bonita, comida ótima, sonzinho gostoso. Essa conversa merece uma comemoração, pápis.

– LGBT? Opa, então eu vou. Pede pra secretária desmarcar a minha conversa com o Thomas Piketty, falo com ele depois.

– Grande dia hoje, hein, pai?  – exclamou o filho

– Grande dia! – concordou o presidente, emocionado.