Bicuda de Kichute e ripa na chulipa!

 

(Ilustração: Marcos Freitas)

O Kichute foi mais do que um tênis para jogadores-mirins de futebol. Para mim, ele representou o retrato da época em que exportar era o que importava ao Brasil. Os mais velhos se recordarão desse momento em que não havia quase nada fabricado fora de nossas fronteiras. As grifes, as comidas, os carros, os eletrodomésticos e, claro, os tênis tinham que ser manufaturados aqui. Por empresas multinacionais, mas em nosso quintalzão.
Tinha o VW Brasília, o Chevrolet Opala, a lasanha Petybon, os jeans Soft Machine e o Kichute.
O meu sonho, na real, era ser dono de um All Star. De cano alto, vermelho ou azul marinho. Mas para ter um era necessário que parentes trouxessem dos Estados Unidos. Ou comprar usado no mercado negro, o que, mesmo assim, custava uma considerável fortuna para um adolescente do Sumarezinho.
Filho de católico nordestino se conforma rapidamente com o que o fado e a economia de seu país lhe concedem. Se não tem All Star, vai Kichute mesmo. Amém.
E assim ganhei meu primeiro par no Dia das Crianças.
Ao notar aquelas cravas, aquele cadarço preto gigantesco – que devia ser cruzado e amarrado nas panturrilhas – esqueci dos Converse, made in USA, na hora. A partir dali, eu estava preparado, de pés e alma, para os embates do futsal no colégio.
Preciso dizer que nunca cheguei a sofrer bullying no campo desportivo – como o colega Castilho, que jogava de botas ortopédicas Dr. Scholl’s. Contudo, digamos que eu não era o mais lembrado para as vagas de titular no instante da convocação da 8ª série A.
Só que, no dia em que cheguei à quadra ostentando o Kichute, algo mudou. O professor de Educação Física, vendo meus tênis tinindo, decidiu me escalar. Joguei 20 minutos, como atacante e, apesar da minha estética irrepreensível, não consegui fazer nada de muito construtivo para o grupo. Percebi que o mestre coçava a cabeça, preocupado, sempre que me via pegar na bola. Logo seria substituído, pensei.
Foi quando aconteceu uma daquelas epifanias joyceanas. A bola caiu como uma pena sobre meu pé direito após um choque entre dois jogadores. Vi-me sozinho diante do gol. Era correr poucos metros e fuzilar. A emoção me sequestrou, perdi alguns microsegundos tentando contê-la, e então houve tempo para que Wilsinho, o craque do adversário, corresse para tentar o desarme.
Para o público das arquibancadas foi um dos dribles mais desconcertantes que alguém já deu naquela escola. Wilsinho foi para um lado, a bola para o outro, e eu, quase tombando no chão, ainda consegui dominar o balão e marcar o tento decisivo da peleja.
Fui abraçado e ovacionado por uma multidão e passei a ser chamado de Garrinchinha, pela finta que desafiara a geometria euclidiana.
Contudo, só para vocês, eu posso dizer uma coisa: não foi um drible tão fenomenal assim. Na verdade, tropecei no cadarço desamarrado do meu Kichute confundindo o beque. Mas que foi um golaço, ah, isso foi.

(Esta é uma das crônicas, sobre o clássico tênis Kichute, que estará no livro “Quando éramos iguais”, a ser lançado ainda em 2020 pela EditorNoir).