Meu sonho era uma Caloi 10, fininha, toda prateada.

 

(Domínio público)

Quando eu era criança, nunca liguei para carrinhos, autoramas, trenzinhos elétricos ou legos. Eu queria muito uma bicicleta. No meu tempo não era a moda que é hoje ser dono de uma bike. Mas, mesmo assim, eu queria ter a minha.
Sonhava com uma Caloi 10, fininha, toda prateada. Ou até mesmo com uma Monark, bem mais simples e espartana. Na real, o que desejava mesmo era sair com o pé no pedal pelo bairro, pelo mundo. Só que não havia dinheiro para nada, estávamos todos falidos na família.

Meu pai nunca levou muito jeito para os negócios. Mesmo assim vivia tendo ideias empreendedoras e revolucionárias. Naquela época, ele tinha criado uma casa de massagens em nosso bairro só com profissionais de Terceira Idade. As senhoras não eram nada atraentes, mas se o cliente escolhesse uma massagista com arteriosclerose ou pressão alta pagava 80% mais barato que nos outros estabelecimentos. No começo até que funcionou, a casa vivia cheia, mas aí vieram as reclamações. Uma noite, quando esfregava um freguês, uma das massagistas teve uma crise de angina e o caso foi parar no Pronto Socorro e, em seguida, na delegacia. Era o nosso fim.

Por sorte, no final desse mesmo ano, meu padrinho acabou me dando uma grande alegria infantil. No Natal, presenteou-me com uma carroça. Sim, uma carroça daquelas que não vem o cavalo, você mesmo puxa.

Tive uma educação muito religiosa.  Se aquela era a vontade divina, seria um pecado não crer que aquele veículo era uma bicicleta de verdade. Eu pensava: e por que não? Ela era urbana, não poluía, tinha duas rodas e se movia através dos músculos do proprietário. Depois que instalei uma buzina e um espelhinho na bichinha, estava com meu sonho ciclístico realizado. Passeava no quarteirão de casa, ia a casa dos amiguinhos, ao parque, tudo com a minha primeira bici aro 78 e sem marchas.

Se sofri bullying, jamais percebi. Nunca tive aquele problema de precisar de rodinhas pra curtir a magrela. E ela nunca me derrubou. Tudo bem, pra ser totalmente franco, preciso dizer que só cai dela uma única vez. Foi numa prova de mountain bike. Mas também levei junto comigo umas 15 bikes, o alambrado, o pódio e a van do patrocinador.

Por isso, serei eternamente grato ao meu padrinho. Inclusive, essa primeira bicicleta foi a que abriu caminho pra eu hoje estar abrindo minha startup. Ela é totalmente inspirada na Yellow: você encontra uma carroça na rua, destrava com o app do seu celular e sai andando na hora. Ainda não tive retorno de nenhum investidor-anjo. Mas certamente sou melhor em negócios do que meu pai.