Um dia era uma pessoa comum, no outro já estava fazendo parte de um grupo de milicianos.

(Simon Wyjers / Pixabay)

Eu me considerava dentro de uma normalidade.  Ninguém é 100% normal, mas me via como uma pessoa ok. Respeitava leis, dialogava, era incapaz de pisar numa formiga.

Um dia aconteceu aquilo: sonhei com Steve Bannon. Foi a gota no copo cheio que transborda o conteúdo, a borboleta que bate as asas na África provocando tsunami na Califórnia.

Passei a me incomodar com todos que não fossem da minha raça, do meu gênero, achar que mulher não deve trabalhar e, sobretudo, pensar que comunistas têm parte com o diabo.

Tão rápido. Tipo incêndio causado por faísca. Quando vi estava tomando ivermectina, cloroquina. Talvez tenham sido esses remédios que me tornaram ainda mais preso aos novos ideais. Me cadastrei no cartão de crédito Havan, criei uma playlist do Sérgio Reis no Spotify, me matriculei num Clube de Tiro.

A mudança foi tão veloz que muita gente passou a me desconhecer. Onde está o sujeito cordato, gentil, diplomático? Por que agora ameaça fazer a cobra fumar no STF? Por que essa idolatria em torno de Olavo de Carvalho?

Eu mesmo não sei dizer o que houve. Um dia era uma pessoa comum, no outro já estava fazendo parte de um grupo de milicianos. Ajudando a construir predinhos populares em cima de areia da praia, andando armado de pistola. É estranho demais.

Agora estou fazendo terapia junguiana para ver se volto ao meu estado original. Escondido, é claro. Senão o pessoal do Clube de Tiro acaba comigo. A psicóloga tem me aconselhado uma série de exercícios. Parar de contar piadas racistas e sexistas, nunca arrotar na mesa, deixar de ser negacionista, não ficar dizendo que sinto saudade do Donald Trump.

É complicado seguir tudo à risca, mas o difícil mesmo é a tarefa de não atirar para cima quando fico irritado. Já fazia parte de mim dar uns papocos a torto e a direito. Ela insiste também que devo contar até 100 antes de elogiar o Ustra.

Sinto que vai ser um longo caminho de volta a mim mesmo. Alguns conceitos são quase impossíveis de arrancar da cabeça. Quando olho para o céu, por exemplo, ainda acredito que a Terra é plana, como diz o Olavo.

E tem certas coisas que realmente não vou deixar de fazer, jamais. Motociata é uma delas. Inclusive, preciso pegar o capacete e sair para a que vai ter no centro daqui a pouco! Quer pegar uma garupa?