Um dia é da coça, outro do surrado.

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Se na época da minha infância houvesse Lei Maria da Penha, mamãe e vovó teriam ido para a Ilha Grande.
Como era costume nos anos 1960, também recebi os meus safanões familiares. Havia a pisa de cinto, o pancadão de mão aberta, o arremesso de sapato de bico fino, a chinelada e a temida surra de palmatória. A de nosso apartamento ficava na área de serviço, pendurada num prego em cima do tanque. Para chegar a apanhar de palmatória era preciso, no entanto, cometer algum deslize muito grave. Algo como mentir, conspurcar imagens cristãs ou xingar membros da família.
A única vez que fui apresentado a esse instrumento de tortura de escravos fugidos foi aos nove anos. Havíamos chegado de Teresina recentemente em São Paulo e nossa situação lembrava a dos haitianos em época de hecatombes. Meu pai, com mestrado em Direito, trabalhava como frentista de posto. Minha mãe, pelos ditames do período, cuidava da casa e dos filhos.
É claro que o salário de papai mal dava para a comida, quanto mais para supérfluos como roupas, material escolar ou remédios.
Como minha avó era boa costureira adaptava trajes dele para que eu fosse para a escola. Durante um bom tempo fui vestido, um dia de terno, o outro de macacão da Texaco.
Ainda não existia a expressão bullying e as contendas entre alunos eram resolvidas na mão. Devido às zoações com minhas roupas acabei me metendo em muitas brigas. A circunstância deixou meu couro mais grosso para poder apanhar em casa com menores danos físicos.
Talvez por isso eu tenha sobrevivido aquele dia na Praça Cornélia. Quando saímos de casa rumo ao apartamento de uma tia, minha mãe já foi avisando:
– No caminho vamos passar em frente à uma loja de brinquedos. Tu podes até entrar, mas se pedir qualquer coisa apanha tanto que até Jesus Cristo vai descer do céu pra interceder.
Entramos na lojinha. Eu logo vi o objeto de desejo da minha vida infantil: uma espingardinha de rolha. O safo vendedor, notando o farol luminoso que pulava de minhas órbitas, pegou a arma e colocou em minhas mãos.
– Leva, eu divido em seis parcelas – declarou, sorridente.
Minha mãe, e também a avó, me olhavam como uma expressão amendrontadora.
– O que eu foi que eu disse? – recordou-me a genitora, entredentes.
O vendedor insistia:
– Pede pra mamãe, a gente faz em vezes…
Diante dos argumentos do homem, meio choroso, pedi a arma a elas.
No instante seguinte, as duas vieram para cima de mim feito panteras. Não obstante a fúria, surpreendi-as. Num salto calculado, meti a mão na blusa de seda de mamãe e rasguei-a, fazendo com que seu sutiã de bojo ficasse à mostra na loja.
Não havia muito tempo. Apanhei a espingardinha e sai em desabalada carreira pela Clélia. Só ouvi a avó comentando, chocada:
– Mas esse menino é o diabo!
Resolvi atravessar a rua e um Penha-Lapa freou a meio metro de mim. Mamãe berrou a um Polícia Civil:
– Seu menino, sujigue o Carlos Antônio! Ele está doido!
O praça veio e me agarrou. Meti-lhe o bico da botinha Dr. Scholl na tíbia. Xingando muito, logo me soltou.
Tomei a direção do centro da Lapa. Não tinha mais nada a perder. Fui vendo cada vez mais longe os cabelos brancos de vovó e as mãos de mamãe cobrindo os seios.
Subitamente fui tomado por uma grande paz. Tinha o objeto mais querido da vida comigo, não precisava mais ir à escola, não apanharia nunca mais. Foi quando o táxi Mercury estacou à minha frente. Mamãe desceu primeiro e disse:
– Cada passo que tu deres são dez pancadas de palmatória a mais, cabra malino!
Vovó me deu um mata-leão e fomos para casa. Só entendi a solenidade do momento quando levei o primeiro golpe. A ocasião pedia o que os meio-nortistas chamam de “peia cantada”, um tipo de rap que explica, a cada bordoada, a razão do flagelo:
– Isto aqui
É pra tu
Aprender
A não fazer
Malcriação
Danação
Doidice
Sem vergonhice… 

Naquela noite fui dormir com as mãos em brasa e nunca mais quis ter aquele tipo de brinquedo. Hoje, quando vejo as famigeradas arminhas de mão, logo penso: “se tivessem levado umas palmadinhas na bunda, usavam as mãos para fins mais nobres”.