Minha curiosidade sobre o método de apresentação de ideias de David Lynch.

(British Library)

Meu ganha pão, há mais de 30 anos, é a criação publicitária. Quando digo isso a artistas, eles sempre me olham com uma expressão de desdém, como se criação publicitária estivesse mais longe da Arte-Com-A-Maiúsculo do que a democracia brasileira da norueguesa.

 Tudo certo, chamemos então a criação publicitária de artesanato publicitário. Independente dessa artesania ser muito mais modesta do que uma Obra de Arte, ambas atividades possuem algo em comum: o artesão também precisa convencer uma pessoa (ou várias) para que financie e veicule sua ideia. Na publicidade, essa pessoa chama-se cliente; nas Artes, mecenas.

 Isto posto vamos à parte que realmente interessa da minha crônica: a mais nova produção de David Lynch, aquele cineasta que inventou Laura Palmer e uma série de anões do mal, mulheres passando roupa com máscaras de coelhos e lenhadores envolvidos em atividades ilícitas. Refiro-me ao curta What did Jack Do?.

Desde que assisti Veludo Azul, os filmes de Lynch sempre me deixaram profundamente intrigado. Eu sei que boa parte daquelas cenas, entremeadas pela guitarra e o mellotron de Angelo Badalamenti, são oníricas e feitas para badalar a nossa mente. Contudo, David Lynch consegue transformar um notório junguiano, como Federico Fellini, no realista Aluísio de Azevedo de O Cortiço. 

 Vendo agora sua nova produção mais uma vez fiquei boquiaberto. E logo imaginei como foi o diálogo entre Lynch e seu cliente, provavelmente um produtor do Netflix, na hora de contar-lhe a ideia do curta:

 – Então, David, me conta o filme…

– Bom, chama-se What did Jack Do?

– O nome é ótimo! E quem é Jack, um detetive?

– Não, o detetive vai ser interpretado por mim. Jack Cruz é um sagui.

– Sagui?

– Sim. Ele fala e é suspeito de assassinar uma pessoa.

– Espera um pouco, David, me explica melhor essa sinopse…

– Calma, ainda não cheguei na parte que eu sei que vai te agradar…

– E qual é?

– A parte romântica…

–  Me conta, por favor.

– Bom, Jack Cruz é apaixonado por Tootabon. 

– Já sei, uma linda fêmea de sagui. 

– É aí que está, te peguei!

– Quem é Tootabon, David?

– Uma galinha.

– Um sagui criminoso, que fala como um ser humano, apaixonado por uma galinha?

– E isso tudo numa cabine de trem!

– E o quê mais?

– No final, antes de ir para a cadeia, Jack canta uma canção que eu mesmo compus, é assim: “once upon a time, we danced…”

 O mais surpreendente, no entanto, é que depois da apresentação dessa ideia, o produtor aprova os milhões de dólares para a execução do filme e ele é lançado na maior rede de streaming do mundo. Não há dúvida: mais do que um gênio da Sétima Arte, David Lynch é o mestre da persuasão.

 E tem mais. Uma noite dessas, você vai estar vendo What did Jack Do? na TV. Sua cara-metade então aparecerá, vinda do quarto. Sonada e aborrecida, lhe dirá:

 – … é mais de meia-noite, por que você não para com essa mania de assistir Animal Planet de madrugada?