“Nemo iudex in causa sua.”

(Provérbio latino)

 

Foto: skeeze por Pixabay

Doutor Mauro Manchego sempre foi homem de respeito no Jardim Maria Luíza. Dali, daquele bairro paulistano mais esquecido que guarda-chuva em coletivo, ele se lançara na vida. De amolador de facas conseguiu abrir um ponto de bicho e, de bicheiro sem senioridade, formou-se advogado com venalidade. Logo depois veio a nomeada para delegado regional e, a partir daquele ponto, não haveria mais frenagem que brecasse sua ascensão jurídica. Depois de alguns chega-pra-lá e beija-mãos, cavocou até virar juiz federal.

No dia do empossamento, o Maria Luíza ficou mais embucetado que em Dia de Reis. A Firmina da Feijoada mandou sangrar um porco baé e acomodou numa mesona da praça feijão preto, chouriço, laranja-da-baía e farofa rica pra mais de 250 bocas esfaimadas.

Ali pelas 15 e tanto veio a eucaristia da efeméride: a arenga do Doutor Manchego. Só de relembramentos a Cícero, o juiz lançou mais de dúzia. Depois vieram as tradicionais obrigadices a cada um daqueles queixos que trituravam rabo de porco e costelinha como se o sol não fosse brilhar nunca mais. Nos terminais da fala, com gritos de “nosso rei!”, o doutor anunciou que, antes de assumir o posto, partia para dias de desrecesso em Paris. “Merecido!” – o povaréu ululava.

Na manhã seguinte baixavam dona Loreta e o esposo nas ribanças da Rive Gauche. Mal aquietaram as malas num canto do quarto 17 do Hotel des Deux Continents, a consorte clamou:

– Mauro, tu me leva na Galeria Prantãpi?

O juiz pretendia dantesmente tomar um fôlego para só depois cair nos conversês, já que seu conhecimento dos vulevus e napadequás era menor que o salário de um estagiário de gari. Mas acabou dando um RSVP positivo à dona Loreta. Estava mesmo carecendo de umas cuecas de pano fino, afinal a magistrância pedia distinção e elegantagem até na abertura do canal alimentar.

Quando deram na gigântica loja de departamentos, por sorte o doutor já viu abancada em sua frente a fieira de cuecas. Saiu logo por detrás do balcão uma galega de uma peitama respeitosa. Foi dizendo com aquela biquice de Brigitte Bardot:

– Vous voulez les caleçons?

Avexado de passar por coió na frente da patroa nas estranjas, doutor Manchego fez que manjava do parisiene todo e a rispostou lascando a única palavra que conhecia do idioma gaulês:

– Oui…

A fulvinha, por seu turno, sacou de uma gavetorra um sem-número de cuecas de todas as padronagens, tonalidades e tegumentos. Foi exibindo-as, uma por uma, ao freguês. Ao final de cada desfile, indagava se aquela o agradara. Ele dizia:

– Oui…mas eu quero MAIOR.

A vendedorinha, sem entender lhufas de rien, apenas passava para outro modelo. E o doutor Manchego ia berrando, cada vez mais alto:

– M-A-I-O-R!! M-A-I-O-R!!

Ali pela exposição da sétima calçola de macho, o rei do Maria Luíza já urrava, acreditando que, se berrasse feito uma araponga, seria melhor entendido pela senhorita francamente mamuda. Em trabalho de aprimoramento de seu discurso, mostrava com as mãos ossudas, paralelas uma à outra, o tamanhaozão que deveria ter a ceroula.

– É M-A-A-I-I-O-O-O-R! OUI?

Com a reverberagem do “maior” cada vez maior, não demorou para se aglomerarem anônimos locais e turísticos em volta daquela barraca de zorba. Frente às murmurices do povo comprador em volta, não restou ao doutor Manchego senão carregar nos decibéis da gritância:

– MAAAAAIIIIIOOOOORRRRRR!

A segurança da galeria foi acionada. Em poucos minutos apresentaram-se os gendarmes e conduziram a dupla por debaixo de bofete e por riba de tapona ao domicílio da Lei.

Dias depois, o casal retornou ao Jardim Maria Luíza. Dona Loreta, morta em vida, sem histórias para contar; doutor Manchego sem cuecas.