Um ritmo que veio ficar com suas questões filosóficas mescladas ao melhor da bosta de vaca.

 

(Raimund Feher por Pixabay )

 

Ele era um produtor musical experiente. No entanto, mesmo com todo seu conhecimento, a ideia que tivera parecia um pouco fora dos padrōes. Ficou digerindo-a por um tempão. Até que começou a sentir que fazia sentido. Mais: que podia bombar.

O sucesso do sertanejo universitário, sem dúvida, era um ponto de partida para a sua aposta. Sentia que existia um segmento de público que, por menor que fosse, entenderia o significado do novo formato de música do campo que iria propor. Foi então que, antes de convocar uma dupla, começou a esboçar possíveis canções para o novo movimento musical. Batizou-o de sertanejo pós-graduação.

Uma madrugada, no estúdio de gravação, pegou uma folha de papel e escreveu a livre adaptação de uma famosa canção. Ficou assim:

 

“Toda vez que eu viajava pela estrada de Ouro Fino

De longe, eu avistava a figura de um filósofo

Que corria abrir o Montaigne e depois vinha me pedindo

‘Leia pra mim, seu moço, que é pra eu ficar ouvindo’

 

Quando a boiada passava e a poeira ia baixando

Eu jogava uma moeda e ele saía sofismando:

‘Obrigado, boiadeiro, que Platão vá lhe acompanhando’

Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando

 

Na minha viagem de volta qualquer coisa eu cismei

Vendo a porteira fechada, o filósofo não avistei

Apeei do meu cavalo e no ranchinho à beira chão

Vi a dona Simone chorando, quis saber qual a razão

‘Boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão

Quem matou meu Jean Paul Sartre foi um boi sem coração’

 

Quando passo na porteira até vejo a sua figura

Fumando o Galouises, mais parece uma loucura

Vejo seu rosto sagaz desejando-me boa leitura

 

A cruzinha no estradão do pensamento não sai

Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais

Nem que o meu gado estoure, qualquer coisa assuceder

Neste pedaço de chão vai ter uma Casa do Saber.”

 

O que era para ser apenas uma letra que servisse de modelo ao sertanejo pós-graduação, tornou-se imediatamente um hit.

Ele havia pedido à uma dupla, ainda sem nome, que gravasse uma ‘demo’ de ‘Filósofo da Porteira’. Mas a música acabou vazando no Youtube e tiveram de oficializar tudo às pressas. Já no primeiro dia, os views bateram a casa do milhão.

Logo veio a primeira dupla do movimento: “Materialista e Metafísico”.

Foi logo seguida por muitas outras, na mesma linha, como “Hanna e Heidegger”,  “Seo Engels e Cumpádi Nietzsche “, “Trio Existencialista” e “Gurizada Dialética”.

O sertanejo pós-graduação estava virando uma realidade.

O show no saguão da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP representou para o gênero o que o espetáculo do Carnegie Hall foi para a bossa nova. Acorreram ao megaevento de bandas famosíssimas de country  norte-americano a seguidores da Escola de Frankfurt.

O auge da noite foi a homenagem a Jürgen Habermas. A orquestra de 117 berrantes e o coral de cowboys de Barretos entoou trechos escolhidos de sua obra “O pensamento pós-metafísico” emocionando a plateia de lavradores, garimpeiros, criadores de gado Nelore e pós-doutorandos em Matemática Pura da Escola de Estudos Filosóficos Avançados de Brandenburgo.

No final houve disputa de touro mecânico entre pensadores pós-modernos e construcionistas.

Por tudo isso, pode-se dizer com certeza: o sertanejo pós-graduação veio para conquistar o país com suas letras que misturam questões filosóficas ao melhor do capim gordura, da bosta de vaca e do incêndio criminoso no bioma.