Para Paulo Mendes Campos.

quebraqueixo

Foto: Carlos Castelo

Ser bandalho não é simplesmente ser um canalha. Ou talvez um pulha. É ir adiante na calhordice e buscar o estado da arte da pusilanimidade

Ser bandalho é revirar arquivos, escutar conversas telefônicas madrugada adentro, viajar para praças distantes em dias santos ou feriados com o intuito de constituir um dossiê.

É dizer a mais deslavada mentira, de cara lavada, para uma plateia imensa. Depois, em caráter reservado, na presença dos acólitos, admitir que faltou com a verdade. E rir, rir muito disso. É manipular. Sem manipulação de fatos, números, pessoas, agendas, amores e relatórios não há bandalho. Este depende da fraude, assim como a burla não vive sem ele.

Ser bandalho é ter a capacidade inata de parecer justo, mesmo sendo arbitrário. É passar uma imagem de cordeiro sendo lobo. É lavar as mãos quando a situação pede que elas não sejam sequer enxutas.

Ser bandalho é fazer que terceiros comam o pão que o diabo amassou pensando nele. É tirar da reta a curva, o aclive e até a própria reta.

Ser bandalho é convidar amigos e parentes para a festinha de aniversário do filho num bufê infantil e cobrar ingresso. Ter uma cara para cada dia da semana. E uma desculpa para cada tipo de cara.

Ser bandalho é saber humilhar tão bem que o diminuído chega a ficar em dúvida se foi aviltado ou glorificado. É chorar na beira de uma cova, para sorrir mais tarde às margens de um espólio. É vingar-se depois de apaziguar-se, locupletar-se antes de ocupar-se.

Ser bandalho é fazer cara de choro quando, lá dentro, impera a gargalhada. Ter horror de pobre e comer quebra-queixo em feira livre para pagar de despojado. Ter um Imposto de Renda que nunca caiu na malha fina – todo bandalho conta com um ótimo contador. Às vezes, muito ocasionalmente, cometer uma boa ação só para inglês ver.

Ser bandalho é um sacerdócio. Exige uso, protocolo, praxe. Ninguém é bandalho sem liturgia. Muito menos sem método. Há os que veem o fenômeno da patifaria como meramente vocacional, mas esses talvez sejam românticos demais.

Ser bandalho não combina com arrebatamento. Fantasia e sonho são o seu inimigo número um.

Apesar disso, o maior objetivo de um bandalho ainda é a beatitude. Nesse sentido, ele é mais metafísico que materialista.É mais espírito, que carne. Porque, no fundo, o auge da bandalhice é fazer todo tipo de cinismo nesse Plano e, ser recebido no Outro, na indulgente condição de santo.