O Houaiss precisa continuar sendo um grande dicionário.

(Foto: Carlos Castelo)

Mauro Villar, 82, é autor do “Grande Dicionário Houaiss “com Antônio Houaiss (1915-1999).

Atualmente é a única pessoa que inclui novas palavras no banco de dados do dicionário. Só no último ano incluiu por volta de 3,5 mil palavras. Diariamente, antes de dormir, lê jornais, revistas, livros, vocabulários técnicos em busca de novidades para incluir no banco de dados.

O Houaiss existe hoje porque ele está trabalhando diariamente. Não se sabe dizer o futuro do dicionário quando ele decidir se aposentar. Por enquanto, vão vivendo com projetos digitais — como serviços de assinatura on-line—, e serviços corporativos para prefeituras, grupos de advogados, médicos, etc. O dinheiro vem dessas coisas. Há também alguns glossários mais simplificados, escolares, mínis, que lançam por vezes. Mesmo assim, a parte financeira vem minguando cada vez mais.

Haverá um momento em que não será possível manter o trabalho da forma em que está. Terão que reestruturar, talvez vender a sede. Por enquanto, estão conseguindo levar. Villar afirma que trabalhará no dicionário enquanto tiver forças — e, no momento, ainda tem bastante.

O trecho acima, originalmente em primeira pessoa, faz parte de um texto escrito pelo lexicógrafo para o jornal O Globo. Ao lê-lo fui tomado por uma série de emoções antagônicas: alegria, raiva, vergonha, esperança.

Raiva e vergonha por verificar, mais uma vez, o quanto a nossa Cultura virou um móvel velho da casa de praia em relação a outros valores. Alegria e esperança por ver que ainda há alguns poucos, como Villar, que se doam a causas tão nobres como o acompanhamento da evolução da nossa língua.

Uma vez escrevi um aforismo que dizia: “O dicionário é um livro cujo personagem principal é a nossa ignorância”. No entanto há outras pessoas, mais capacitadas do que eu, que falaram bem melhor sobre a importância do dicionário. Aqui vão duas citações que aprecio:

“Embora o meu vocabulário seja voluntariamente pobre — uma espécie de Brasileiro Básico — a única leitura que jamais me cansa é a dos dicionários. Variados, sugestivos, atraentes, não são como os outros livros, que contam a mesma estopada do princípio ao fim. Meu trato com eles é puramente desinteressado, um modo disperso de estar atento… E esse meu vício é, antes de tudo, inócuo para o leitor.”

(Mario Quintana, Dicionários, em “Caderno H”)

Dicionário, não és

tumba, sepulcro, caixão,

túmulo, mausoléu,

és senão preservação,

fogo escondido,

plantação de rubis,

perpetuação viva

da essência,

celeiro do idioma.

(Pablo Neruda, trecho de “Ode ao Dicionário”)

No mesmo dia em que li o depoimento de Mauro Villar fui ao site do Houaiss Corporativo e efetuei minha assinatura on-line.  Que tal repetir o gesto e concretizar a sua colaboração, aporte, cooperação, subscrição? Nosso idioma, penhorado, agradecerá.