Um relato sobre a fidelidade dos livros.

IMG_0107Foto: Carlos Castelo

A minha relação com ela começou aos 23 anos. Foi na primeira viagem que fiz ao Exterior por conta própria. Estava no Chiado, em Lisboa, em visita às ancestrais livrarias do bairro. Fiquei fascinado com a arquitetura das lojas e ainda mais com a infinidade de títulos vertidos para o Português que não existiam no Brasil. Trouxe diversos de lá, mas recordo-me em especial de um Martin Eden, um Werther e o Nossa Senhora de Paris, numa primorosa edição da Bertrand em capa dura.

Quando cheguei em São Paulo não voltei mais para a casa dos pais. Era um homem comprometido e vivia num pequeno apartamento da zona oeste da cidade. Não tinha mais as lindas estantes da casa da família na Granja Viana e, por isso, precisava dispor aquelas maravilhas adquiridas em Portugal em algum cantinho especial. Antes, cumpre dizer que estava iniciando a vida trabalhando como foca em redações.

Ou seja, qualquer capital que não fosse gasto em aluguel, alimentação e plano de saúde me deixava no vermelho.

Certa noite queixava-me de meus apertos num bar, quando um dos convivas sugeriu que eu dispusse minha biblioteca em caixas de laranjas vendidas nos arredores do Ceagesp.  “Está na moda, você dá uma lixada, enverniza e pronto: já tem um lugar pra guardar tudo.”

No sábado seguinte estava lixando as caixas de madeira e, em seguida, depositando Goethe, Victor Hugo e Jack London onde deveriam estar laranjas pera do rio.

Fiquei com aquelas estantes “da moda” por uns bons anos. Até me afirmar como redator de propaganda e mudar para uma casa maior. Num dos quartos instalei a estante que tenho até hoje. Ela é de madeira clara, tem 24 nichos onde cabem cerca de 40 livros de tamanho padrão. Isto quer dizer que ali podem coabitar facilmente mais de 900 obras.

Essa bela estrutura sobrevive, com rara dignidade, a dois casamentos, duas uniões estáveis, diversas mudanças de endereço, umidade, crianças de colo, traças e um gato.

Conheço pouca gente com tantas folhas de papel estocadas em domicílio. Mas tive mais sorte que um amigo. Como eu, ele era um apaixonado por sua vitrina. Só que casou-se e a consorte era pessoa pragmática.  Acreditava que aquelas malditas prateleiras impediam-na de aprimorar o décor da peça. Um dia, após pesada D.R., a sistemática senhora virou-se para o colega e disse:

“Você tem 55 anos e mais de 1500 livros. Se viver mais 30, lendo um livro por mês – o que é bastante – são quantos livros?

“360 livros” – calculou ele.

A mulher foi assertiva:

“Então separe os 360 que acha imprescindíveis e, por favor, me libere duas paredes do apartamento.”

Ele obedeceu e eu mesmo comprei mais de 80 tomos da vitrina dele.

Hoje vivo situação semelhante. Não porque a esposa me deu um ultimato. Mas porque ela também possui lá os livrinhos dela e a soma de tudo não cabe mais na idosa estante que me acompanha há 30 anos. De mais a mais temos uma filhinha e, nesses dias brumosos de inverno, a pequena sofre com os ácaros que se metem nos relatos de nossos autores favoritos. Ontem mesmo abriu um Louis-Ferdinand Céline que estava ao lado de um Tolstói e espirrou demais a pobrezinha.

O que fazer? Anunciar o que não for imprescindível no Estante Virtual? Doar para uma biblioteca pública? Chamar as Casas André Luiz?

Aceito sugestões. Só não me digam para adotar o Kindle: não sou homem de andar com megabytes no lugar de palavras.