“Todo mundo está ficando louco e ninguém toma a menor providência” (Oliveira, Carlinhos)

 

(Lan / Acervo da família)

“José Carlos Oliveira – não se sabe se também, na verdade, ou sobretudo – era Carlinhos Oliveira, “cristão, católico apostólico romano, pagão, filho de Iemanjá”; o mais ecumênico dos ateus”; “brasileiro por fatalidade, temperamento e vocação”; “apenas dois dedos maior que Napoleão Bonaparte”; “com o coração de Gauguin, o fugitivo, o liberado, o inocente, o doido”.

Admirador do Tropicalismo e francamente favorável aos movimentos de contestação à ordem dominante, sintetizados em divisas como “toda autoridade é cômica” e “make love, not war”, se dizia “contra todos os governos, inclusive e principalmente o nosso” e recomendava “a destruição simultânea do Kremlin e da Casa Branca” – afirmações e autorretratos com que, naquele ano de 1968, sob o fogo cerrado da polarização ideológica, zombava de toda pretensão de pensamento hegemônico.

Foi assim que Bernardo de Mendonça, organizador de Diário da Patetocracia – Crônicas Brasileiras 1968 apresentou, em 1995, sua antologia oliveiriana. Uma obra que, como o icônico ano de 1968, ainda não acabou. Aliás, voltou e parece não estar com vontade de ir-se embora.

Patetocracia foi um termo inventado por Carlinhos de Oliveira, em sua coluna no Jornal do Brasil, para satirizar a ditadura militar brasileira imposta após o golpe que derrubou o presidente João Goulart. O neologismo foi usado pela primeira vez na crônica, Contra a censura, pela cultura:

“Todo dia um pateta qualquer enfia sua pata numa peça de teatro e corta as frases que lhe parecem atentatórias à moral, aos bons costumes e à democracia. Não se passa uma tarde sem que outro pateta dê o ar de sua graça, cortando sequências inteiras de filmes. A Patetocracia não dorme em serviço.”

Topar com o material de Carlinhos nos deixa entre maravilhados e estarrecidos. Encantados pela maneira como ele seleciona os temas e os desenvolve, as palavras feito linhas de uma bordadeira capixaba compondo uma colcha de fatos. E perplexos, pois o bordado lembra um afresco dos dias atuais.

Seria até um truísmo afirmarmos que 2022 é uma espécie de 1968 do século XXI. Apesar de que ainda falta ao período gerar as conquistas de seu parente do século passado. Por enquanto, só temos as mazelas: golpes brancos, ignorantismo, reacionarismo, guerras, inflação.

“Os patetocratas, no início, eram melífluos, depois se tornaram sombrios e, finalmente, encontraram o grotesco” – relatava Carlinhos, no JB, há 54 anos. A diferença para o Brasil de hoje é que, nem no início, os patetocratas do presente foram melífluos. Já entraram de bíblia na mão e ferradura nos cascos.

Por isso é tão indispensável mergulhar nos escritos de Carlinhos de Oliveira. E, até antes, colocar nas prateleiras mais tomos do ateu ecumênico. Não basta apenas o livro da Graphia, nem os posts no Portal da Crônica Brasileira, do IMS. É preciso mais, muito mais.

A solução então é fumar Braga, cheirar Stanislaw e beber Carlinhos de Oliveira. Ninguém sai da patetocracia para a astutocracia sem fazer a lição de casa.