(cattu por Pixabay )

Fiz ESPM. Tá bom, não fui dos caras mais foderosos em notas. Tinha os botecos, as baladas, as minas. Mas sempre passei na média.

Depois que peguei o canudo consegui passar uns tempos na gringa. Trabalhei no Burger King nuns picos de Idaho, fiz intercâmbio e tudo o mais. Eu achava que o lance de sair do Brasil já seria meio estágio na Criação de agenciona. Mas, que nada, tudo papo furado, velho.

Voltei ruim de grana: tinha torrado tudo em balada, minas, tênis Nike e num MacBook Pro.

Mesmo assim cheguei me achando. Foi mal, mas pensa: seis meses fora, inglezão bombando, umas camisetas feras que tinha trazido. Cara, eu já era “um” da Criação!

Fui numa agência pequena pra iniciar os trampos. Porque ali eu sabia que neguinho ia me botar pra dentro sem muita vaselina.

A parada ficava perto da estação Armênia. E os malucos tavam numas de prospectar qualquer lance, até conta de boca de fumo. Um cara se apresentou como CEO e me bateu que eles tavam precisando urgente de faturamento, aqueles papinhos.

Topei ajudar o CEO na prospecção. Não era grande coisa, um interruptor de luz. Tá bom, um interruptor design para cacete. Mas não era aquela conta de carro, banco ou cerveja, que eu sonhava pilotar.

O CEO contou que a gente tinha até segunda de manhã pra mostrar pro freguês. Era sexta, final da tarde. Detalhe: queria três opções criativas.

Perguntei da equipe. Aí ele fez outra revelação: a equipe era um diretor de arte e eu. Ele faria o retroplanejamento e o resto tudo nóis na fita.

Nem voltei pro apê que dividia com o Cachaça, diretor de arte de healthcare e ex-colega da ESPM. O CEO disse que tinha uma janta importante. E tipo nove e meia saiu fora. Foi ele partir e pintou o diretor de arte. O maluco parecia o Sargento Garcia, aquele do Zorro. Tinha uns 60 anos e o hálito era pura essência de rabo de galo.

Resumindo, só voltei pro muquifo da Heitor Penteado no domingo de manhã. Pra tomar um banhinho, dar um cochilão e trocar a roupa pro turno da tarde. É, mano, o CEO queria ver as linhas e ia pra agência às quatro.

Sargento Garcia chegou na hora, num porrinho legal, halls mentho-lyptus na boca e tals. Fomos logo apresentando os conceitos. O CEO fez um mix da ideia dois com a ideia três. Ficou assim: Interruptores X. Se liga. Achei meio vago, mas o cara mandava. Sargento Garcia marcou os layouts e eu comecei a finalizar os roteiros em cima da assinatura aprovada. Vamos ganhar essa porra, o presida berrou.

Quando deu umas oito, eu ainda tava arrematando a porra toda, o engravatado entrou na salinha. Ei, dois, vamos ver umas gatas? – sugeriu. Grande Mendonça!, gritou Sargento Garcia num berro que encheu a saleta com um aroma meio eucalipto, meio álcool gel.

Eu tava podraço. Mas aprendi nos intervalos da facul que convite de diretoria não se desdenha. Fui até o banheiro, lavei o carão e fomos os três pra night.

A casa que o Mendonça escolheu era de pleiba. Fiquei olhando o estilo daqueles Boeing todos passando, pensando no que ia falar. ‘Tenho 600 seguidores no Insta, e você?’ Era uma…

Resolvi dar uma volta e vi Sargento Garcia subindo com dois Airbus pros quartos. Achei que ele tinha ficado louco e fui acudir. Mano do céu, você sabe quanto custa ficar 15 minutos com cada minazinha dessas?

O cara estava pensando que era o Zorro aquela noite. Quem tá com o Mendonça, tá com Deus, o mascarado dizia, sorrindo.

Fiquei na minha. Como os dois tinham sumido, paguei as cocas que tinha bebido, a consumação e voltei pra Heitor Penteado de Uber.

Na segunda à tardinha retornei à agência louco pra saber o que tinha rolado na concorrência. Ao chegar na recepção, a mocinha foi logo me encaminhando pro RH. Não precisamos mais de seus serviços, Rosário, disse o gerentinho.

Normal.

Na saída encontrei o tiozinho diretor de arte. Tava com a maior cara de bunda. Não pude deixar de perguntar como tinha sido a noite com os dois aviões. Ele se fechou todo e resmungou: velho, acabei pagando do meu bolso, o Mendonça sumiu. E agora ferrou tudo mesmo, porque a merda de conceito que você criou fez a gente perder os interruptores. Babau, reembolso da casa da luz vermelha…

No Luz-Pompeia, de volta, pensei com os meus botões: não tem jeito – até com Idaho, ESPM, camiseta fera e MacBook Pro, estagiário de Criação só se fode.