Minha filha ainda é muito pequena. Mas chegou a uma importante conclusão existencial: não é feliz sem um cachorro.

O problema é que moramos numa casa tão pequena que é preciso entrar bem devagar na sala para não cair no quintal do vizinho.

Tentei ver a proposta de alojarmos um cão em nosso domicílio por uma óptica otimista. Mas a razão falou mais alto: pets e espaços pequenos são como Michel Teló e música dodecafônica – incompatíveis.

A filha abriu um berreiro e eu sai pra espairecer no quarteirão. Na rua, um sentimento de culpa sobreveio. Acionei um aplicativo de classificados no celular e, na seção de animais domésticos, deparei com este anúncio: “doo cão de raça por motivo de mudança.”

Peguei um táxi e, instantes depois, tocava a campainha da casa de Dona Dolores. Ela era uma viúva idosa de origem hispânica. Usava um xale negro sobre os ombros, um camafeu com a foto do falecido no pescoço e fumava sem parar. Era a cara da Pasionária.

– Vamos a ver Ranulpho – disse desaferrolhando o portão.

Referia-se ao bicho de modo peculiar, como se fosse um filho. Sentei-me num puff na sala de estar e aguardei a vinda do animal.

Alguns minutos se passaram, e dona Dolores entrou pela cozinha, trazendo Ranulpho preso a uma grossa coleira.

– E entonces, no és un hermoso perrito? – perguntou.

Definir precisamente o que vi é uma tarefa complicada. Poderia dizer-se resumidamente que aquele cão era um mutante. Nunca meus olhos presenciaram alguma coisa, a um só tempo tão assimétrica e desajeitada. Ranulpho contrariava os postulados de Euclides. Em última instância, era um Colosso de Rodes projetado por Salvador Dali – beirava o surreal.

– Que raça é esta?  –  quis saber.

– Una cruza de buldogue con fox paulistinha – explicou ela em seu portunhol.

Já ia dar uma desculpa esfarrapada e sair fora quando Ranulpho jogou baixo comigo. Colocou suas ignominiosas patas sobre meu peito e dei-me duas lambidas tão violentas que quase desfaleci.

– Ranulpho desea mismo vivir contigo – dona Dolores admitiu.

Ficar ali naquela situação constrangedora começou a me dar nos nervos. Num impulso, apanhei o cachorro pela coleira e sai decidido porta afora. Mas Dona Dolores, arrependida, não queria mais permitir a saída do bicho.

– Dá-me lo, dá-me-lo!

Desvencilhei-me dela energicamente e entrei no táxi. Ainda ouvi sua voz ao longe:

– No te olvides; dá-le carne!

Agora estou deitado no quartinho dos fundos de casa. Ranulpho ressona no estrado. Comeu um quilo e oitocentas gramas de capa-de-filé.

Minha filha não se acertou com ele. Parece ser mais claro: horrorizou-se com ele. Está inclusive passando uns dias na casa da avó para se recuperar do choque. Minha mulher dorme sozinha no quarto de casal. Não me perdoou por ter trazido Ranulpho. E faz até sentido a sua raiva; o desajeitado esmigalhou um jogo completo de copos de cristal que ela trouxe de uma viagem com apenas uma rabanada.

Restou-me a companhia de Ranulpho. Dir-se-ia até que, assim no escuro, ele não é tão horrível. Pena que ronque tanto.