Tudo que é sólido desmancha no mar.

(Foto: www.pngtree.com)

Qualquer pessoa atenta à vida da nossa cidade percebe que, basta cair uma chuva, para que a urbe se transforme numa espécie de Lago Titicaca. Só que com muito mais caca.
As autoridades (?) estão construindo piscinões, escovando as bocas-de-lobo com creme dental. Mas a verdade – nua, crua e molhada – é que o pélago está cada vez mais transbordante.

Cumpre, portanto, criar um código de comportamento para enfrentar as quase diárias trombas d’água.

Segue uma pequena cartilha de procedimentos, anotadas após ouvir a experiência de vários ilhéus, ilhados e náufragos de São Paulo.

– Se à noite, dormindo, você sonhar que está nadando num mar largo e que, à sua volta, boiam alguns objetos estranhos, acorde imediatamente. Na verdade é a sua casa que está sendo inundada. E os objetos não-identificados são a sua mobília.

– Quando o carro começar a boiar na enxurrada ou no túnel, nada de desespero. Suba no teto e aproveite o momento para praticar tai-chi associado a longos exercícios respiratórios. Lembre-se que você vai precisar dos pulmões bem oxigenados para nadar até em casa.

– Num navio que vai a pique a ordem é: “mulheres e crianças primeiro!”
Como na sua casa quem manda é você, é perfeitamente lícito numa enchente adaptar esta regra para “cunhados e sogra por último!”.

– Tenha sempre no porta-malas do automóvel ou em casa uma capa de chuva, uma boia de golfinho, um foguete-sinalizador, dois remos e uma jaca. Numa inundação é fundamental estar bem nutrido. E a jaca é um alimento que não boia.

– Não fale com estranhos. Especialmente com os estranhos que passarem boiando.

– Não faça marola. Numa enchente, há um princípio universal: “tudo o que vai líquido, volta sólido”.

– Dinheiro em papel molha e estraga. Prefira andar (nadar) com uma boa quantidade de moedas de um real. Se alguém de jet-sky se aproximar do seu carro, entregue todas as moedas, sem fazer perguntas. Pode ser uma nova modalidade de furto.

– Se o seu automóvel for seguindo a correnteza até desembocar no mar, evite abordar navios. Você pode ser confundido com um membro do Greenpeace e ser surrado até desmaiar.

– Se o socorro demorar mais de uma semana para chegar, considere seriamente a hipótese de continuar ilhado por um longo período.

Uma saída para amenizar este fato é tentar explorar comercialmente a chuva. Siga o exemplo dos ribeirinhos amazonenses e comece vendendo produtos de primeira necessidade, como sal e açúcar.
Só depois explore a pesca. A venda de toalhas, roupões e secadores de cabelo também é muito indicada nestas ocasiões.

– Agora que leu a cartilha inteira, assista na sua TV por assinatura Titanic, Imensidão Azul, Flipper, Namor – o Príncipe Submarino, Viagem ao Fundo do Mar, Vinte Mil Léguas Submarinas e todos os documentários do Jacques Costeau. É uma boa maneira de ir se acostumando ao próximo dilúvio.